quinta-feira, 7 de março de 2013

DÚVIDA CRUEL: luta ou fuga?



Nós temos apenas cinco sentidos? Penso que não. Hoje diante de uma reunião pedagógica estranhíssima, pude acreditar que as emoções humanas não são sensações ou percepções advindas apenas dos cinco sentidos. O aprendizado sobre estes, desde Aristóteles, foi limitado ou restrito. Apenas os cinco sentidos não dão conta de tudo o que se passou em mim durante 4h de reunião, de novo, estranhíssima. Ou os sentidos não cabem em mim ou eu não caibo neles. Algo está errado. Hoje, na escola, a reunião.
Em princípio, uma reunião pedagógica voltada para o fomento de novas estratégias a serem realizadas durante o ano, ou ao menos, durante os dois semestres do ano. Planejamentos, planos, projetos, entrega de diários, esclarecimentos administrativos e reorganização das tarefas docentes e gestora eram os temas esperados. Todos os sistemas sensoriais dos docentes estavam voltados para os entendimentos das novas posturas pedagógicas para o ano de 2013. Estímulos orquestrando potenciais de ação quanto à criatividade e às sugestões de ensino dos docentes, diante do novo perfil do aluno 2013, já presente na escola. Todos cientes das suas capacidades e habilidades, apenas em expectativa de indicações de como usá-las em sala de aula.
Porém nada disso ocorreu. Houve variações nessas diretrizes. Houve variação na postura gestora, o que gerou mudanças na temperatura, na pressão, na posição das articulações motoras (propriocepção) e no equilíbrio emocional dentre outras sensações do grupo docente. Sem delongas, a gestora disse: ‘não quero me meter no ‘pedagógico’!’. Silêncio total. Penso até que os níveis de glicose em circulação de todos se alteraram completamente. Os cérebros ‘sentiram’ a informação chocante e demoraram a reagir. Alguns perderam momentaneamente a audição e disseram: ‘Ahã? Como é que é? Repete?’.
Sinceramente eu queria ser uma planta e viver com apenas dois sentidos: tato e luz. Aquilo não podia ser verdade, aquilo era uma sombra no sentido da visão, tão importante para o pensamento e a memória humanos. O grupo não falou mais nada. Minutos se passaram. Talvez ela nem tenha se dado conta. De repente, o mesmo grupo inverteu a situação: ‘vamos jantar?’
Se os sentidos comuns não deram conta da informação, é melhor ir caminhar, andar, respirar, falar em/por outros lugares e com outras pessoas, para arejar ‘a mente’ sem levar as emoções longe demais ou derramar, sem sentir, muito cortisol ou dopamina nas artérias.
No jantar, questões excitatórias no ar e sem controle, tal e qual ficam os feromônios humanos: ‘como não querer saber do ‘pedagógico’? Como assim?’ Uma amiga me disse: ‘ela precisa estudar...’. Será? Será que apenas estudando é possível adquirir um ‘sentir’ sobre o ambiente escolar e/ou as pessoas necessárias à escola? Diante da fala fatídica, se ela não sente, ela não se percebe também. Há uma cegueira sensorial diante de certezas e posturas anteriores de sucesso que atravancam a possibilidade de superação destes mesmos sucessos. É quase impossível ir além da paleta de sensações e envolver os docentes em novas diretrizes, a partir das memórias profissionais de formação, experiências e processamentos cognitivos mais sofisticados de cada um, dentro de uma expressão tão sem sentido.
O sentido do que foi falado torna-se barulho, confusão, ruído; e os filtros cerebrais complexos barram este tipo de som enquanto se presta atenção na ‘janta’. Impressionante! Os docentes então agem da seguinte forma: ignoram o ruído irrelevante e mudam o foco. Tanto o som da mensagem, quanto a emissora, são ignorados. É ouvir sem escutar. É o dilema da sobrevivência em âmbito escolar. E aí constantemente em nossas mentes, a presença das amígdalas cerebrais em sua dicotomia: luta ou fuga? Ou melhor, expondo a perversidade humana, mantida no campo do pensamento (imaginário) pelas tantas regras sociais: comer, fugir ou acasalar? Entendo agora estatísticas que anunciam milhares docentes em licença psiquiátrica.
É tão bom ser um simples animal sem uma forte complexidade cerebral (pelo desenvolvimento do córtex) e viver sob a égide de decisões também tão simples como luta ou fuga, ou, comer, fugir ou acasalar. Mas, quanto mais alto na escala filogenética (o que significa processos perceptivos mais complexos), menos o organismo está a mercê dos seus sentidos primitivos... dizem...
Infelizmente se não há geneticamente inserido em nossas moléculas, quaisquer transtornos de ansiedade, neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina nos oferecem o equilíbrio motor e sensor necessários ao processo de calma das tensas amígdalas cerebrais e do ‘irônico’ sistema límbico, através do córtex e do neo-cortex.
Por conseguinte, nós pensamos; nós podemos analisar e pensar; nós podemos nos corticalizar em estratégias internas e externas de forma a recompor nossas coerências cerebrais (neuroplasticidade) e estabelecer outros comportamentos (ainda) emocionais diante do que quer que seja ou de quem seja. Não é fácil. Diante de determinadas posturas, isso é dificílimo. Mas seguimos tentando para não entrarmos em barbárie total.
Depois da ‘janta’ retornamos à sala de reunião. Talvez tivéssemos sido enganados pelos sentidos. Talvez tivéssemos julgados a ‘pessoa’ com muita rapidez. Talvez não tivéssemos entendido o sentido da mensagem. Talvez nossos cérebros tivessem misturado os sentidos que, em princípio não são entidades independentes, mas cuja percepção é seu produto final.
Ledo engano. Tudo ratificado na primeira fala de retorno à reunião. Não fomos enganados por uma falsa leitura labial; pelo cruzamento momentâneo de estímulos entre diferentes áreas sensoriais e nossa imaginação; ou pelas tantas conversas paralelas comuns numa sala de professores. Todos fomos enganados por nossas teorias: nossas leituras e nossa formação.
Então a questão dos cinco sentidos, da geração espontânea, da frenologia, da gestão democrática e do respeito ao aluno devem ser colocadas em ‘stand by’, ou no conjunto dos absurdos, sem nenhum sentido, de determinadas políticas públicas.

Profa. Ms Claudia Nunes



quarta-feira, 6 de março de 2013

COMPETÊNCIAS docente no século XXI


Hoje devemos ter preocupação com os jovens do século XXI. São muitas exigências, muitas pressuposições, muitas sugestões, e nem sempre a geração mais jovem adquire habilidades para se sustentar dentro desse conjunto de necessidades. Ao se reconhecer que a sociedade está em crise, porque em processo de transição, deve-se reconhecer também que, no meio de tudo, está a geração jovem em processo de aprendizagem e de desenvolvimento biológico; e, pelo visto, uma geração com chances mínimas de se estabelecer bem no social e/ou no campo de trabalho.


No campo biopsicossocial, a tríade família, escola e trabalho apresentam conflitos, desrealizações, mudanças, necessidades, cada vez mais intensas e rápidas. Estas requerem decisões absurdamente objetivas e quase sempre a geração mais jovens ainda não tem ferramentas cognitivas e afetivas suficientes para observar, pensar e decidir com média coerência. Nada incomum, apenas a ratificação de que a geração jovem do século XXI, apesar das tantas tecnologias a que tem acesso, é mesmo uma geração jovem, ou seja, uma geração ainda necessitando de parcerias, seguranças, pontos de contato com as gerações anteriores. Um grande período em que esta geração jovem pode se instrumentalizar cognitivo-afetivamente para o mundo é o período escolar.
Durante quase 10 anos, esta geração jovem está imersa no ambiente escolar, em diferentes níveis e, em cada nível, é esperado que habilidades inatas e aprendidas no convívio social sejam trabalhadas e aprofundadas até o ponto do conhecimento efetivo e da construção de uma memória de procedimentos importante à vida integral. Surge então um questionamento: será que as novas tecnologias da Internet podem dar conta disso? Sinceramente, não há como responder por que estas ‘novas tecnologias’ necessitam também de pensamento, criação e aplicação contextualizada de novas metodologias relacionadas a desafios de aprendizado inovadores e não a práticas ainda fixadas no passado apenas transpostas, por exemplo, do quadro ao datashow. 
Esta questão é difícil por que as novas tecnologias, quando encaradas como parte do conjunto de recursos de aprendizagem, exigem conhecimento docente sobre suas dinâmicas de ação e construção. Ao introduzi-las em sala, o próprio docente deve ser capaz de responder determinadas questões ‘mecânicas’, como ‘professor, como mudar o perfil do blog?’, ‘professor, como faço para não receber todos os emails do nosso grupo online?’, ‘quero colocar só vídeos no nosso blog, como faço?’ etc. Será que os professores estão (já) competentes para lidar com essa outra gama de questões em sala de aula? É preciso pensar além do conteúdo e transformá-lo em dinâmicas interessantes e desafiantes no contexto escolar visando realmente o futuro de uma nação.
No século XXI, os docentes têm a necessidade de renovar seus procedimentos metodológicos, de acordo com o contexto em que trabalham. Não vale mais a idéia de que, diante do conteúdo, a aula está pronta e deve ser realizada linearmente como o planejado. Diante de uma geração jovem, completamente envolvida com a dinâmica da vida social, ainda que muitos não tenham tanto acesso às novas tecnologias, a complexidade cognitiva e emocional são os conceitos da hora e devem ser os principais objetivos na construção dos planejamentos e das relações entre professores e alunos.
Planejamentos de cursos, planos de aula, ações de proximidade, inclusão escolar, estratégias de aprendizagem, práticas de ensino, fazem parte de um pacote dinamizador tanto da escola quanto da sala de aula, quando pensados em termos globais, em termos de rede complexa de respeito às subjetividades e ao contexto escolar. Neste pacote, é possível pensar a aprendizagem em ligação com outros saberes que não apenas o do saber específico de uma área de saber. É possível pensar interdisciplinarmente. É possível desenvolver a formação integral dos sujeitos-aprendentes. É o momento idealizado, na formação docente, em que ensinantes e aprendentes se integram na perspectiva de compor emoções e cognições no ato de aprender fazendo. Daí está favorecido, o ‘pensar’ e o ‘realizar’ o conteúdo tendo sentido e significado, ou seja, sendo utilizado na vida de cada aprendente ou formando memórias para a vivência e convivência na/com a vida.

Porém que competências docentes são necessárias?

Segundo site PORVIR, um grupo de fundações pediu que o National Research Council (organização norte-americana que faz pesquisas sobre temas importantes da sociedade para ajudar governos a desenharem políticas públicas) reunisse especialistas para definir quais são essas competências. Durante um ano, um comitê formado por educadores, psicólogos e economistas fez pesquisas sobre o que se espera que os estudantes alcancem nos seus ciclos escolares, nos seus futuros trabalhos e em outros aspectos da vida. O resultado, publicado no fim de julho no livro digital “Educação para a Vida e para o Trabalho: Desenvolvendo Transferência de Conhecimento e Habilidades do Século 21” (download gratuito), tenta dar nomes aos bois e ajudar professores e gestores públicos a prepararem os estudantes para o século 21.
Apesar de ainda serem necessários alguns estudos para pavimentar esse caminho, os pesquisadores dão seis dicas de atuação em sala de aula para que professores possam preparar o aluno para o século 21 – que começou há 12 anos.
1)   Procure usar representações variadas, como diagramas, representações numéricas e matemáticas, simulações;
2)   Encoraje uma postura questionadora e proporcione momentos em que os alunos possam expor o que sabem;
3)   Incentive os alunos a participarem de desafios; neste processo, seja um facilitador, dê feedback e os faça compreender seus próprios processos de aprendizagem;
4)   Ensine dando exemplos, citando casos; use, por exemplo, modelos de passo a passo explicando cada etapa;
5)   Prime pela motivação dos alunos, escolhendo temas que se conectem com suas paixões; incentive-os a resolver problemas, preste atenção na evolução de seus conhecimentos, muito mais que em suas notas;
6)   Use avaliações formativas em que o aluno é monitorado continuamente.


Profa Claudia Nunes

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

CÉREBROS no Trabalho


Os líderes mais inovadores incentivam a inovação, o pensamento criativo e a capacidade de resolver problemas.

Gestão de pessoas: muito difícil, se não houver autoconhecimento das próprias emoções. Gestão de pessoas para construir um ambiente intelectual participativo, colaborativo, cooperativo e solidário: muito difícil quando não se têm a noção equilibrada dos estímulos a que sentidos e sensações entrarão em contato todos os dias. Gestão de pessoas: exigência de um cérebro ‘aberto’ às constantes adaptações e transformações de si e dos outros. É um diálogo entre sinais elétricos enviados a determinadas áreas cerebrais para que se mantenha organizada uma subjetividade, uma equipe ou um ambiente de trabalho. E se assim é, por que há ambientes de trabalho tóxicos?
O cérebro entra em contato com o ambiente por meio dos órgãos dos sentidos, mas estes são estabelecidos a partir das vivências de cada um. A ênfase em um deles é uma questão de aprendizado e de convivência cotidiana em meio ao desenvolvimento biopsicossocial de cada um. Nesta perspectiva, falamos da evolução das amígdalas cerebrais (emoções), do hipocampo (memória) e do córtex pré-frontal (raciocínio).
A convivência então entre pessoas ‘alimentará’ as rotas das sensações cujos “órgãos dos sentidos detectam estímulos, convertem a informação em sinais elétricos e os transmitem para as zonas do cérebro especializadas em processar tipos específicos de informação sensorial e transformá-los em sensações” (MORAES, 2009). Logo, num mundo perfeito, quando controlamos o córtex pré-frontal esquerdo do investimento dos impulsos acionados pelas amígdalas cerebrais, controlamos o estresse e podemos encontrar o equilíbrio emocional no trabalho.
Hoje, além do conhecimento, é imprescindível pensar e agir com inteligência na gestão de pessoas no trabalho. É preciso fazer funcionar o cérebro consciente, ainda que memória e imaginação estejam sempre em alerta quanto ao desconhecido ou às diferenças de posturas ou expressões das emoções. Logo, ao gerirmos pessoas no trabalho, devemos desencadear a experiência de realidade no intuito de estabelecer as melhores performances e relações profissionais. Mas como? Com uma linguagem ética (verbal ou não) diante dos comportamentos dos outros, em situações diferentes, principalmente as mais conflituosas.
Um bom gestor, antes de tudo, deve ser um bom observador dos seus ‘gestados’; deve se propôr a alcançar o sucesso de si e do grupo experimentando deixar de lado, por algum tempo, quem se é para entender quem se tem ao lado, e desta forma, efetivar uma mudança de realidade no ambiente de trabalho.
Um bom gestor é o responsável por gerir e gerenciar o sistema de recompensa de uma equipe em quase todas as situações. Por conseguinte, no mundo exterior, ele é o responsável pela estimulação da área tegmentar ventral e a conseqüente liberação de dopamina através do núcleo accumbens até o córtex pré-frontal. Ele é responsável por estimular seus ‘gestados’ a terem prazer em trabalhar principalmente em equipe.
Sendo assim, boas relações se constroem com a experiência da expressão e do diálogo entre as emoções, as linguagens e os pensamentos sobre si mesmo e sobre o que se quer do outro, num espaço importante de convivência na busca de diferentes tipos de superação pessoal e profissional. E isso não se faz sem entender previamente a necessidade de autogestão emocional. Ou seja, “competências como gerenciamento de emoções, motivação concentrada para atingir metas, adaptabilidade e iniciativa são baseadas na autogestão emocional” (GOLEMAN, 2012, p.37).
O ambiente em que passamos boa parte do nosso tempo (o trabalho) demanda, além um cérebro social, um cérebro emocional focado no desejo da ação criativa prazerosa. E como desejo entende-se “como impulso complexo que reflete fortemente preferências pessoais; e possui dois componentes: gostar e querer; o primeiro refere-se à obtenção de prazer, e o segundo associa-se à necessidade real de alguma coisa” (MORAES, 2009, p.136).
Não há separações nas ações de gostar e querer (ambas emoções da aprendizagem e da boa convivência), afinal a corticalização das informações até o conhecimento, é também a emoção de conhecer diante do processo de aprendizagem mais significativa. Se não houver esse equilíbrio tão talâmico, há o que Goleman (2012) chama de ‘sequestro da amígdala’ cuja reação excessiva pode nos levar ao arrependimento, ainda que as conseqüências sejam drásticas e irrevogáveis.
Mas quais seriam os gatilhos da amígdala no local de trabalho? Segundo Goleman (2012, p.41), seriam cinco gatilhos, a saber:
“- condescendência e falta de respeito;
- ser tratado injustamente;
- sentir-se desconsiderado;
- sentir que não se é escutado e que não lhe prestam a atenção;
- ficar submetido a metas irrealistas”.
No contexto do trabalho, “emoções podem parecer sentimentos conscientes, mas são movimentos internos, ou seja, são respostas psicológicas aos estímulos, destinadas a nos afastar do perigo e nos aproximar da recompensa” (MORAES, 2009). É preciso treinar o cérebro para entender as diversidades e se manter inserido neste ambiente com mais recompensas do que perigos (ansiedades, preocupações, medos ou irritações). É emoção pura. É um processo intenso de adaptação às situações e de transformação interna elaborada pelo sistema límbico (um conglomerado de estruturas situado abaixo do córtex pré-frontal) em busca de organização, esclarecimentos e, principalmente, respeito às individualidades em meio a tanta complexidade de vida.
Porém, um gestor assim está no campo do imaginário. Logo resta os ‘gestados’ surpreender alguns gestores ‘tóxicos’ ignorando o uso de algumas frases (idéias) apresentadas pelo site Universia, a saber:
1. "Isso não é justo";
2. "Isso não é problema meu" ou "Não sou pago para isso";
3. "Eu acho que...";
4. "Vou tentar";
5. "Eu odeio...";
6. "Mas nós sempre fizemos desse jeito";
7. "Isso é impossível" ou "Não há nada que eu possa fazer";
8. "Você deveria ter...";
9. "Talvez eu esteja enganado, mas...";
10. "Você não acha?";
11. “Não tenho tempo para isso agora”.

É preciso ‘treinar’ o cérebro gestado sem níveis de ansiedade e/ou eliminando determinadas zonas de conforto emocionais para que o processo de recompensa e de convivência seja restaurado com força e seriedade. Pense nisso!

Profa. Claudia Nunes

Referências:
GOLEMAN, Daniel. O cérebro e a Inteligencia Emocional: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
MORAES, Alberto Parahyba Quartim de. O Livro do Cérebro 2: sentidos e emoções. São Paulo, SP: Duetto, 2009.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

PORTELA 2013


MADUREIRA... onde o meu coração se deixou levar

E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios
Por onde me deixo levar
Laiá
Nossa história começa por lá
No engenho da fazenda
Dos cantos de “canaviá”
Bate o sino da capela
Ôi… que é dia de santo, sinhá
Tem mironga de jongueiro
O tambor me chamou pra dançar
Tempo rodou na roda do trem e veio
A inspiração do partideiro
Que versou no Mercadão
Foi nesse chão
Que a estrela brilhou no tablado
O “Madura” pisou no gramado
O malandro charmoso dançou
No pagode com outro gingado
Quando o bloco chegou
Agitou o suingue do black
E a nega baiana girou
Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia
Vai como pode quem quer
Surgiu a serrinha imperial
Em outros caminhos para o mesmo ritual
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar
É a capital de um sonho que me faz sambar
Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar
O batuque ginga ioiô
Ginga iaiá

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

ATENÇÃO, desempenho e sala de aula


Fim do ano. Avaliações finais. Todos muito tensos. Professores querendo férias. Pais em expectativa quanto à nota final dos filhos. Mesmo alunos-adultos, há uma tensão: perspectiva de promoção, de alcance de outro cargo ou de maior valorização em família ou no trabalho depende da nota final. Os sentidos estão à prova. Eles lutam entre o que realizaram durante o ano e como foram vistos (analisados) ao longo das suas realizações no mesmo ano. É uma tensão misturada com um grande desejo: tomara que tudo termine bem, tomara que ‘eu’ passe de ano. Não interessa mais como foi o ano, agora é torcer para que o professor seja, além de tudo, sensível e o promova. É tensão mesmo.
Mas como foi seu desempenho durante o ano? Hoje em dia, em geral, os pais têm preocupações enormes quanto ao desempenho dos seus filhos na escola. Eles pouco observam o processo de aprendizagem cotidiana, mas se preocupam muito com o objetivo final: a nota. Pouco se ligam nas notas bimestrais, ou visitam a escola vez por outra, mas a nota final é primordial. Caso haja sucesso, tudo o que foi organizado com antecedência (viagens, festas, mudanças) ocorrerá sem transtorno, mas se há o fracasso, tudo se torna a metáfora do fim do mundo. Festas, viagens e mudanças vão acontecer normalmente, afinal o filho estará em férias, mas há o drama da decepção (ou culpa) e o ridículo dos castigos mais variados.
Para os pais é um momento de susto mesmo. Em suas tantas responsabilidades diárias, acreditaram que o filho estava bem e aprendendo. Se ele, filho, vai à escola todos os dias e só tem isso para fazer é lógico que tudo vai bem. Só que não é bem assim. Do nada, ele (o pai) percebe o filho em seu pior momento e não entende o que aconteceu, já que deu todo o conforto e alimento para o sujeito. O que fazer? Ter mais atenção!
Na sociedade moderna, ter atenção está muito difícil. São milhares de informações por segundo com as quais não conseguimos lidar, muito menos apreender. E aí reproduzimos de fato o que o cérebro faz com naturalidade: seleção. Entre o input e o output de informações, a formação de conexões neuronais acontece por associação por semelhança de conteúdos em cada núcleo de cada neurônio e isto de comum acordo com os chamados ‘neurônios espelho’. É um processo de seleção cerebral em busca da formulação do pensamento. Ter atenção é um processo então que antecede ao pensar. E muitos pais precisam pensar seus filhos durante todo o ano letivo. Ou melhor, muitos pais precisam estar atentos aos seus filhos para pensá-los em sua formação integral cotidianamente. E aí nova pergunta: se isso foi feito, como está a atenção dos filhos?
Uma das ações cerebrais mais importantes no processo de aprender é a atenção. Mas até esta ação demanda outras ações para acontecer. Segundo Johnson, então “é preciso descobrir a sensação de prestar atenção” para se reconhecer o prazer de aprender. O cérebro é um espaço de ações complexas e integradas. Nada acontece sem afetar de alguma maneira todo o sistema nervoso. Logo a ação de atenção é uma ação que também estimula à mudança de comportamento. É o início deste processo de mudança biocomportamental que convoca os sujeitos a entrar em sinergia aprendente com suas emoções, desejos, objetivos, certezas etc.
Como o aprender é uma ação que altera a neuroquímica cerebral, fortalece conexões entre várias sinapses, estimula memória, emoção e cognição (hipocampo, amígdala e córtex pré-frontal), a atenção é uma ação que atrai habilidades internas que necessitam destes mesmos elementos para se transformar em conhecimento. E isso não é fácil. Ter atenção nos dias de hoje mais tecnológicos (velozes) não é fácil. Então como está a atenção dos ‘filhos’ no processo de aprendizagem?
Segundo Johnson (2008, p.76), “o conceito de atenção é um prisioneiro em nossa linguagem: pensamos que [as] diversas habilidades são semelhantes em termos qualitativos porque temos uma só palavra que serve para todas elas”. Ou seja, pensar na ação de atenção no processo de aprender (plasticidade cerebral) não deve excluir a certeza de que somos completamente diferentes justamente no processo de aprender (construção de novas conexões neuronais). Há uma complexidade singular quase inimaginável na movimentação das redes de informações no espaço cerebral e isso sempre vai promover uma exposição comportamental também singular dos sujeitos sociais (filhos). Mas a proximidade real dos pais pode gerar formas de prestar atenção. E como isso se dá?
Todo professor deve condicionar, com ritmo e repetição, os cérebros para que estes se comportem de novas maneiras no mundo real. Esse condicionamento se dá através de uma aproximação mais afetiva e de estratégias de ensino mais emocionantes, atuais e diversas constantemente. O professor deve mudar (refletir) para emocionar, estimular e mudar cérebros cada vez mais ávidos pelo surpreendente e diferente na escola e nas relações, mesmo de conteúdo, que for construindo. Por isso o sabor ou a sensação de prestar atenção deve ser trabalhado como prazerosa e muito importante em todas as ações e comportamentos cognitivos, emocionais, sociais e pessoais. Afinal não existe boa ou má atenção, existem atenções bem ou mal estimuladas. Uma lembrança: os pais são os primeiros professores dos sujeitos (filhos).
            Quando pensamos em mudanças nas estratégias de ensino, pensamos na questão dos sentidos. O circuito da atenção no cérebro é dependente de como os sentidos são atingidos pelas informações ou emoções, no caso, dentro de uma sala de aula. Depois de se integrar na turma e de se adaptar às diferentes emoções de se estar junto a outras pessoas (outras experiências e expectativas), o aluno deve reconhecer seu papel como aprendente. A figura do professor, então, surge como o grande manipulador dos sentidos focados na idéia de aprender. E os primeiros sentidos a serem trabalhados são a visão e a audição, circuitos cerebrais abertos à composição de informações. É o primeiro momento de assimilação apresentada por Piaget.
            Mesmo com grandes responsabilidades, os pais têm que entender que os filhos aprendem por estimulação dos sentidos e esse ‘aprender’ é muito singular. Os filhos têm sistemas sensoriais, partes de seus sistemas nervosos, que consiste de receptores sensoriais e neurônios aferentes. Estes movimentam partes do cérebro envolvidas no processamento da informação. Daí o sabor de prestar atenção é o sabor da percepção e do reconhecimento da mensagem apresentada como interessante. O sabor de prestar atenção é o sabor da assimilação daquilo que for interessante. Então cada um (filhos), mesmo no início da sua formação educacional, após tempo de envolvimento com a educação familiar, tem atenção naquilo que for ou novidade ou interessante. Em ambos, neurônios espelhos se encontram com outros neurônios cujas informações semelhantes agitam o hipocampo e trazem ao córtex pré-frontal algum link com a realidade já vivida. Momento da atenção.
            Estímulos dentro das zonas de interesse dos alunos geram atenção e aprendizagem. Eles são os precursores das respostas fisiológicas e comportamentais envolvendo o sistema sensorial e a vida cotidiana. O desempenho de cada aluno depende então dos diferentes estímulos com as quais se deparar em casa, na escola, na rua, no trabalho, onde quer que seja. E cada cérebro, com seu sistema sensorial, responderá melhor a diferentes tipos de estímulos de acordo com suas diversas freqüência. Sendo assim, o desempenho é algo que deve ser observado (percebido) gradativamente porque, de uma forma intensa, vai gerar mudanças comportamentais, de visão de mundo, emocionais e cognitivas nos alunos.
            Segundo Johnson (2008, p.77), depois da sensação de prestar atenção segue-se a “sustentação, capacidade de permanecermos concentrados num único objeto ou tarefa por períodos mais prolongados”. Porém não há unanimidade em seu acontecimento nos cérebros aprendentes, já que alguns podem ter uma ótima sustentação olfativa, mas ter um sistema visual distraído com facilidade por causa dos novos estímulos. É o princípio da construção das habilidades e da afirmação das competências de cada um em determinados assuntos ou pensamentos.
Ao tentar acompanhar os desempenhos, os pais e professores precisam ter em mente um mantra: no processo de aprendizagem, os canais sensitivos são primordiais, eles captam, em qualquer momento específico, tantos dados relativos ao mundo externo que a principal capacidade da consciência não é a habilidade de perceber o ambiente ou de assimilar conteúdos, num curto espaço de tempo, mas sim a capacidade de ignorar a maior parte dos estímulos, criando combinações importantes ao próprio desenvolvimento cognitivo e emocional.
            Pais, os desempenhos dos seus filhos têm singularidades muito específicas porque atravessam sentidos também muito específicos. Logo atenção aos estímulos no processo de aprendizagem e não à sua culminância tão fechada numa nota final.

Profa Claudia Nunes

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

FREINET e o 'ENSINAR'


            O mundo parece cada vez mais complexo. E não apenas por conta da quantidade absurda de informações a que podemos ter acesso, a qualquer hora da noite ou do dia. Mas, principalmente, porque com as transformações sociais e culturais, do ponto de vista biopsíquico, multiplicaram-se as formas de ser (família, profissional, adulto, homem, mulher, cidadão...). Modelos mais flexíveis abriram espaço para nos perguntarmos: como ensinar hoje?
            Aparentemente tudo já foi dito, mostrado e escrito. Aparentemente o que importa é o tanto de acessibilidade cada um consegue em seu cotidiano, dentro das suas especificidades também sociais e culturais, e isso vem modificando o modus operandi das formas de aprender. Ensinar, então ganha uma nova juventude: um momento em que a ação de experimentar torna-se a melhor estratégia para se impulsionar a vontade de aprender ou, ao menos, de se estimular a curiosidade sobre determinado assunto.
            Celestin Freinet sem um método pedagógico rídigo, nem uma teoria propriamente científica, nos apresenta pedagogias possíveis às ‘novas’ salas de aula: a pedagogia do trabalho, do bom senso, da afetividade e do êxito. Todas relacionadas com uma proposta de mais autonomia, criticidade e solidariedade no desenvolvimento das aprendizagens.
            Bem antes do sócio-interacionismo de Vigotsky e da afetividade de Wallon, Freinet nos apresenta, a partir das técnicas pedagógicas mais colaborativas ou da vivência do aprender ‘fora escola’, a possibilidade de se transformar aprendentes em sujeitos sociais proativos e integrados em suas referências sociais. Ensinar, a partir do desenvolvimento de atividades em conjunto, torna-se um momento de respeito a maneira como os aprendentes aprendem e como constroem os próprios caminhos neurais até o conhecimento. Ensinar torna-se criar uma vida cognitiva através do trabalho colaborativo.
            De acordo com Freinet, é preciso observar, entender e usar as diversidades e contradições em prol do processo de aprender. É ensinar no aprender fazendo, interagindo, criando sinergias entre o que se sabe e o que se pode saber no grupo. Córtex pré-frontal, hipocampo e lobos parietais acionados. É ensinar na colaboração para constantes reelaborações das informações na memória.
            Ensinar à geração multimídia demanda então os 04 fatores importantes: trabalho, bom senso, afeto e êxito. E este ensinar, quando à luz da neurociência, torna-se excitante e prazeroso. É promoção das neuroplasticidades, ou seja, da mutabilidade da sala de aula, a partir da mutabilidade neuronal de todos os cérebros em funcionamento focado. Além das emoções estimuladas pelo sistema límbico, há a demonstração da capacidade do encéfalo com seu córtex, tronco encefálico, bulbo e cerebelo de gerar e assumir funções e decisões, também gerando uma suficiente e ampla comunicação entre neurônios de forma a incentivar qualitativamente as atividades.
Ao elaborar seu planejamento então, o educador deve criar atividades que comportem um conjunto mínimo de conteúdos a serem assimilados durante sua realização. Ensinar torna-se a criação de processos de adaptação internas (bio) e externas (psicossocial) constantes. Ou seja, é exigir do cérebro sua função executiva com prazer e crescente auto-estima.
Segundo Lent (2008, p.289), as funções executivas “é um conjunto de operações mentais que organizam e direcionam os diversos domínios cognitivos categoriais para que funcionem de maneira biologicamente adaptativa”, mas também nos informa que estas mesmas funções executivas “são de difícil mensuração (...) e se manifestam em ambientes que demandam criatividade, respostas rápidas a problemas novos, planejamento e flexibilidade cognitiva” (p.291). Todo o processo, por conseguinte, acessa e estimula as amígdalas cerebrais, produzindo memórias emocional, que ativam o córtex pré-frontal, que introduz o raciocínio, o pensamento racional às etapas a serem enfrentadas por todos em cada atividade.
Ensinar, hoje, ganhar um novo estilo: um estilo mais ‘cerebelar’, mais equilibrado, com mais postura, apesar da necessidade de uso incessante de recursos tecnológicos no trato com a dinâmica da sala de aula. Há uma neurogênese importante no processo de se adquirir conhecimento, mas só ativada e desenvolvida caso aja uma adição constante de novas células para manter tanto o tônus muscular, quanto às faculdades mentais.
Hoje ensinar precisa ativar com intensidade áreas do aprendizado e da memória (hipocampo). E Freinet, com sua técnicas, torna-se extremamente atual e necessário.

Profa Claudia Nunes

Nada nunca é igual

  Nada nunca é igual   Enquanto os dias passam, eu reflito: nada nunca é igual. Não existe repetição. Não precisa haver morte ou decepçã...