terça-feira, 23 de junho de 2020

ERRO DE DESCARTES (um resumo do capítulo)

Um pouco desse livro FANTÁSTICO. É apenas a INTRODUÇÃO. Há o livro em PDF, mas tenham o livro físico. Muito importante. Bo noite!

DAMÁSIO, Antonio. O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996 [Dados eletrônicos]
Advertência: decisões sensatas provêm de uma cabeça fria e de que emoções e razão se misturam tanto quanto a água e o azeite. Hábito: os mecanismos da razão existiam numa região separada da mente onde as emoções não estavam autorizadas a penetrar e, quando pensava no cérebro subjacente a essa mente, assumia a existência de sistemas neurológicos diferentes para a razão e para a emoção. Perspectiva largamente difundida acerca da relação entre razão e emoção, tanto em termos mentais como em termos neurológicos.
Um amigo, uma lesão afetada por uma doença neurológica que danificou um setor específico do cérebro, originando, de um dia para o outro, essa profunda deficiência na capacidade de decisão. Os instrumentos habitualmente considerados necessários e suficientes para um comportamento racional encontravam-se intatos. Ele possuía o conhecimento, a atenção e a memória indispensáveis para tal; a sua linguagem era impecável; conseguia executar cálculos; lidar com a lógica de um problema abstrato. Apenas um outro defeito se aliava à sua deficiência de decisão: uma pronunciada alteração da capacidade de sentir emoções. [...] Ou seja, a emoção era um componente integral da maquinaria da razão. [...] Ou seja, de novo, uma observação cotidiana, uma pista numa hipótese testável.
Proposta: a razão pode não ser tão pura quanto a maioria de nós pensa que é ou desejaria que fosse, e que as emoções e os sentimentos podem não ser de todos uns intrusos no bastião da razão, podendo encontrar-se, pelo contrário, enredados nas suas teias, para o melhor e para o pior.
É provável que as estratégias da razão humana não se tenham desenvolvido, quer em termos evolutivos, quer em termos de cada indivíduo particular, sem a força orientadora dos mecanismos de regulação biológica, dos quais a emoção e o sentimento são expressões notáveis. Além disso, mesmo depois de as estratégias de raciocínio se estabelecerem durante os anos de maturação, a atualização efetiva das suas potencialidades depende provavelmente, em larga medida, de um exercício continuado da capacidade para sentir emoções.
Não se pretende negar com isso que as emoções e os sentimentos podem provocar distúrbios destrutivos nos processos de raciocínio em determinadas circunstâncias. O bom senso tradicional ensinou-nos que isso acontece na realidade, e investigações recentes sobre o processo normal de raciocínio têm igualmente colocado em evidência a influência potencialmente prejudicial das emoções. É, por isso, ainda mais surpreendente e inédito que a ausência de emoções não seja menos incapacitadora nem menos suscetível de comprometer a racionalidade que nos torna distintamente humanos e nos permite decidir em conformidade com um sentido de futuro pessoal, convenção social e princípio moral.
Tampouco se pretende afirmar que, quando têm uma ação positiva, as emoções tomam as decisões por nós ou que não somos seres racionais. Limito-me a sugerir que certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade. No que têm de melhor, os sentimentos encaminham-nos na direção correta, levam-nos para o lugar apropriado do espaço de tomada de decisão onde podemos tirar partido dos instrumentos da lógica. Somos confrontados com a incerteza quando temos de fazer um juízo moral, decidir o rumo de uma relação pessoal, escolher meios que impeçam a nossa pobreza na velhice ou planejar a vida que se nos apresenta pela frente. As emoções e os sentimentos, juntamente com a oculta maquinaria fisiológica que lhes está subjacente, auxiliam-nos na assustadora tarefa de fazer previsões relativamente a um futuro incerto e planejar as nossas ações de acordo com essas previsões.
Sugestão: a razão humana depende não de um único centro cerebral, mas de vários sistemas cerebrais que funcionam de forma concertada ao longo de muitos níveis de organização neuronal. Tanto as regiões cerebrais de “alto nível” como as de “baixo nível”, desde os córtices pré-frontais até o hipotálamo e o tronco cerebral, cooperam umas com as outras na feitura da razão.
Os níveis mais baixos do edifício neurológico da razão são os mesmos que regulam o processamento das emoções e dos sentimentos e ainda as funções do corpo necessárias para a sobrevivência do organismo. Por sua vez, esses níveis mais baixos mantêm relações diretas e mútuas com praticamente todos os órgãos do corpo, colocando-o assim diretamente na cadeia de operações que dá origem aos desempenhos de mais alto nível da razão, da tomada de decisão e, por extensão, do comportamento social e da capacidade criadora. Todos esses aspectos, emoção, sentimento e regulação biológica, desempenham um papel na razão humana. As ordens de nível inferior do nosso organismo fazem parte do mesmo circuito que assegura o nível superior da razão.
É fascinante encontrar a sombra do nosso passado evolutivo no nível mais distintivamente humano da atividade mental, embora Charles Darwin já tivesse antevisto o essencial dessa descoberta ao escrever sobre a marca indelével das origens humildes que os seres humanos exibem na sua estrutura corporal. Contudo, a dependência da razão superior relativamente ao cérebro de nível inferior não a transforma em razão inferior. [...] O que pode mudar é a nossa perspectiva acerca da maneira como a biologia tem contribuído para a origem de certos princípios éticos que emergem num determinado contexto social, quando muitos indivíduos com uma propensão biológica semelhante interagem em determinadas circunstâncias.
A emoção é o segundo tema central deste livro. Tema escolhido pela necessidade, ao procurar entender a maquinaria cognitiva e neurológica subjacente à razão e à tomada de decisões. Por isso, uma segunda ideia presente no livro é a de que a essência de um sentimento (o processo de viver uma emoção) não é uma qualidade mental ilusória associada a um objeto, mas sim a percepção direta de uma paisagem específica: a paisagem do corpo. [...] Os sentimentos não são tão intangíveis quanto se supunha. Pode-se circunscreve-los em termos mentais, e talvez encontrar também o seu substrato neurológico.
Neste sentido, emoções e sentimentos incluem não só o sistema límbico, uma ideia tradicional, mas também alguns dos córtices pré-frontais do cérebro e, de forma mais importante, os setores cerebrais que recebem e integram os sinais enviados pelo corpo.
Concebo a essência das emoções e sentimentos como algo que podemos ver através de uma janela que abre diretamente para uma imagem continuamente atualizada da estrutura e do estado do nosso corpo. Se imaginarmos a vista dessa janela como uma paisagem, a “estrutura” do corpo é o análogo das formas dos objetos espacialmente dispostos, enquanto o “estado” do corpo se assemelha à luz, às sombras, ao movimento e ao som dos objetos nesse espaço. Na paisagem do seu corpo, os objetos são as vísceras (coração, pulmões, intestinos, músculos), enquanto a luz e a sombra, o movimento e o som representam um ponto na gama de operações possíveis desses órgãos num determinado momento. Em termos simples, mas sugestivos, o sentimento é a “vista” momentânea de uma parte dessa paisagem corporal. Tem um conteúdo específico — o estado do corpo — e possui sistemas neurais específicos que o suportam — o sistema nervoso periférico e as regiões cerebrais que integram sinais relacionados com a estrutura e a regulação corporal. Dado que o sentir dessa paisagem corporal é temporalmente justaposto à percepção ou recordação de algo que não faz parte do corpo — um rosto, uma melodia, um aroma —, os sentimentos acabam por se tornar “qualificadores” dessa coisa que é percebida ou recordada.
A partir das emoções, o corpo entra numa faixa positiva (alteração veloz) ou negativa (alteração lenta). [...] Nessa perspectiva, emoções e sentimentos são os sensores para o encontro, ou falta dele, entre a natureza e as circunstâncias. E por natureza refiro-me tanto à natureza que herdamos enquanto conjunto de adaptações geneticamente estabelecidas, como à natureza que adquirimos por via do desenvolvimento individual através de interações com o nosso ambiente social, quer de forma consciente e voluntária, quer de forma inconsciente e involuntária.
Os sentimentos, juntamente com as emoções que os originam, não são um luxo. Servem de guias internos e ajudam-nos a comunicar aos outros sinais que também os podem guiar. E os sentimentos não são nem intangíveis nem ilusórios. Ao contrário da opinião científica tradicional, são precisamente tão cognitivos como qualquer outra percepção. São o resultado de uma curiosa organização fisiológica que transformou o cérebro no público cativo das atividades teatrais do corpo.
Os sentimentos permitem-nos entrever o organismo em plena agitação biológica, vislumbrar alguns mecanismos da própria vida no desempenho das suas tarefas. Se não fosse a possibilidade de sentir os estados do corpo, que estão inerentemente destinados a ser dolorosos ou aprazíveis, não haveria sofrimento ou felicidade, desejo ou misericórdia, tragédia ou glória na condição humana.
[...] Descobrir que um certo sentimento depende da atividade num determinado número de sistemas cerebrais específicos em interação com uma série de órgãos corporais não diminui o estatuto desse sentimento enquanto fenômeno humano. Tampouco a angústia ou a sublimidade que o amor ou a arte podem proporcionar são desvalorizadas pela compreensão de alguns dos diversos processos biológicos que fazem desses sentimentos o que eles são. Passa-se precisamente o inverso: o nosso maravilhamento aumenta perante os intricados mecanismos que tornam tal magia possível. A emoção e os sentimentos constituem a base daquilo que os seres humanos têm descrito há milênios como alma ou espírito humano.
Este livro compreende ainda um terceiro tema relacionado com os anteriores: a perspectiva de que o corpo, tal como é representado no cérebro, pode constituir o quadro de referência indispensável para os processos neurais que experienciamos como sendo a mente. O nosso próprio organismo, e não uma realidade externa absoluta, é utilizado como referência de base para as interpretações que fazemos do mundo que nos rodeia e para a construção do permanente sentido de subjetividade que é parte essencial de nossas experiências. De acordo com essa perspectiva, os nossos mais refinados pensamentos e as nossas melhores ações, as nossas maiores alegrias e as nossas mais profundas mágoas usam o corpo como instrumento de aferição. Por mais surpreendente que pareça, a mente existe dentro de um organismo integrado e para ele; as nossas mentes não seriam o que são se não existisse uma interação entre o corpo e o cérebro durante o processo evolutivo, o desenvolvimento individual e no momento atual. A mente teve primeiro de se ocupar do corpo, ou nunca teria existido.
De acordo com a referência de base que o corpo constantemente lhe fornece, a mente pode então ocupar-se de muitas outras coisas, reais e imaginárias. Essa ideia encontra-se ancorada nas seguintes afirmações: 1) o cérebro humano e o resto do corpo constituem um organismo indissociável, formando um conjunto integrado por meio de circuitos reguladores bioquímicos e neurológicos mutuamente interativos (incluindo componentes endócrinos, imunológicos e neurais autônomos); 2) o organismo interage com o ambiente como um conjunto: a interação não é nem exclusivamente do corpo nem do cérebro; 3) as operações fisiológicas que denominamos por mente derivam desse conjunto estrutural e funcional e não apenas do cérebro: os fenômenos mentais só podem ser cabalmente compreendidos no contexto de um organismo em interação com o ambiente que o rodeia.
O fato de o ambiente ser, em parte, um produto da atividade do próprio organismo apenas coloca ainda mais em destaque a complexidade das interações que devemos ter em conta. Não é habitual falar de organismos quando se fala sobre cérebro e mente. Tem sido tão óbvio que a mente surge da atividade dos neurônios que apenas se fala desses como se o seu funcionamento pudesse ser independente do funcionamento do resto do organismo. Mas, à medida que fui investigando perturbações da memória, da linguagem e do raciocínio em diferentes seres humanos com lesões cerebrais, a ideia de que a atividade mental, dos seus aspectos mais simples aos mais sublimes, requer um cérebro e um corpo propriamente dito tornou-se notoriamente inescapável.


Em relação ao cérebro, o corpo em sentido estrito não se limita a fornecer sustento e modulação: fornece, também, um tema básico para as representações cerebrais. [...] Nesta perspectiva, o amor, o ódio e a angústia, as qualidades de bondade e crueldade, a solução planificada de um problema científico ou a criação de um novo artefato, todos eles têm por base os acontecimentos neurais que ocorrem dentro de um cérebro, desde que esse cérebro tenha estado e esteja nesse momento interagindo com o seu corpo. A alma respira através do corpo, e o sofrimento, quer comece no corpo ou numa imagem mental, acontece na carne.
[...] A esta altura, é provável que o leitor já tenha descoberto que essa conversa não se debruçou sobre Descartes nem sobre a filosofia, embora tenha sido por certo acerca da mente, do cérebro e do corpo. Estamos sob o signo de Descartes, visto não existir forma de tratar tais temas sem evocar a figura emblemática que moldou a abordagem mais difundida respeitante à relação mente-corpo.

SETE REGRAS DA MENTE (resumo capítulo)

         Mesmo com tantos estudos, uma coisa é certa: toda e qualquer programação não se sustenta diante do tempo ou da surpresa. Em ciência, afirma-se, que temos uma programação natural; mas também é sabido que, diante das surpresas, a que chamaremos experiências, há grandes modificações nas estruturas cerebrais e sociais. Experiências, influências, mudanças. Segundo Arruda (2018), é preciso entender como a mente nos afeta na prática, ou seja, nós precisamos entender as setes regras da mente, a saber:

SETES REGRAS DA MENTE

1.       Todo pensamento ou ideia causa uma reação física.

 

Lição: Esteja atento às reações do corpo. Quais pensamentos podem causá-las?

 

Corpo e mente estão sempre conectados. Início de um pensamento, alguma emoção ativada. Organismo em preparação. Momento de terror? De amor? De susto? De paixão? Diferentes situações. Pele em reação. A mente subconsciente não sabe a diferença do real para o imaginário. Imagine uma cena de amor ‘caliente’, por alguns segundos. Sentidos excitados. Seu coração bate mais acelerado. Pressão aumenta. Reações físicas fortes.

2.       O que é esperado tende a ser realizado.

 

Lição: Acredite que você pode realizar o que quiser.

 

‘Efeito placebo’. A mente projeta o desejo de melhora. Cria uma crença. A saúde física depende da expectativa mental. Tudo é mais difícil quando o pessimismo impera, ideia já aceita pelos médicos. Mas é difícil expandir essa regra para outras áreas da vida, como profissional ou pessoal. Talvez pensamento positivo. Talvez força de vontade. Leiam ‘O Segredo’ de Rhonda Byrne cuja interpretação é, em termos simples, que toda energia vibra numa frequência; por ser energia, você também vibra numa frequência, e o que determina sua frequência de vibração a qualquer momento dado é o que você pensa e sente. Para Arruda (2018), da mesma forma que suas programações podem mudar você e seus planos para pior, também podem mudar para melhor. Tente.

3.       A imaginação é mais poderosa do que o conhecimento quando lidamos com a própria mente

 

Lição: Não julgue, menospreze ou discuta com pessoas com crenças ou opiniões particulares diferentes das suas. A razão dificilmente pode contra a emoção.

A razão é facilmente anulada pela imaginação. Pense em seu parceiro (a) lhe traindo. Pense nos detalhes. O desconforto, inclusive no corpo, é natural. Na verdade, qualquer ideia acompanhada por uma forte emoção, como raiva e ódio, acaba se sobrepondo à razão. E geralmente essas ideias não podem ser alteradas apenas com o uso da razão. Lembre-se das brigas sobre política, religião, futebol etc.

4.       Uma vez que um conceito foi aceito pela mente subconsciente, ele permanecerá lá até ser substituído por outro.

 

Lição: Questione as verdades que não são úteis. Mantenha só aquelas que o ajudam a ser quem você quer ser.

Todo mundo tem pontos de vista que não são corretos. Certezas são perenes. Uma verdade se mantém até surgir outra. A permanência de uma ideia dificulta a troca. Há verdades nem pensamos que podem ser falsas, como: ‘qualquer pessoa na minha situação também se sentiria deprimida’; ‘é difícil sair de uma depressão’; ‘vou levar anos para mudar minha saúde’; ‘não dá para sair de um vício de uma hora para outra’; ‘preciso sofrer muito para ser alguém na vida’; ‘não sou atraente para outras pessoas’; ‘difícil ser bem-sucedido’. Programações subconscientes. Assim, os hábitos (bons ou maus) são formados. Mas primeiro a gente pensa, depois age.

5.       Cada sugestão aceita cria menos oposição às próximas sugestões

 

Lição: Comece construindo o que quer em sua mente de pouco

em pouco.

Elogios são importantes e animam o dia de alguém. Mas de acordo com o estilo de cada um, um elogio pode ser sentido como ironia ou com surpresa ou mesmo descrença. Elogio alegra o dia de alguém. Quem não tem o costume de recebe-lo agiam com dúvida. Elogio por mais de uma pessoa, num mesmo dia, também gera desconforto e estranheza. Mas a regra 5 também funciona para as considerações positivas, e aí podemos nos beneficiar dela. Táticas de convencimento. Acesso direto às programações do subconsciente.

6.       Um sintoma físico emocionalmente induzido tende a causar uma mudança orgânica se persistir por tempo suficiente

 

Lição: Preste atenção nas emoções que você tem cultivado e busque formas de evitá-las. Foque-se cada vez mais em experiências positivas para incentivar emoções positivas.

Lembra da regra 1? O pensamento gera uma emoção, e esta produz uma reação física. Todavia, se essa reação física não for saudável, ao longo do tempo vai prejudicar o organismo. São as chamadas doenças psicossomáticas, que podem também apresentar sintomas físicos, sem ter uma origem orgânica. Quando você sente raiva, o cérebro produz cortisol, hormônio liberado em situações de estresse. E o estresse, além de bloquear a liberação de substâncias químicas para uma digestão saudável, pode aumentar a secreção de ácidos no estômago e provocar os sintomas clássicos da gastrite. Qualquer obsessão acaba agravando a situação, e o corpo começa a realmente produzir o que eles querem encontrar. Mas, por outro lado, também não podemos separar corpo e mente. Muitos problemas podem ser evitados se a gente mudar o jeito de pensar.

7.       Ao lidar com o subconsciente e suas funções, quanto maior esforço consciente, menor a resposta subconsciente.

 

Lição: Entenda o que precisa mudar, mas não se torne neurótico ou se esforce demais, não é assim que o subconsciente responde.

Já pensou que precisava dormir logo e, quanto mais queria dormir, parecia que menos sono tinha? Já pensou em se deitar sem se preocupar se precisa  dormir e, de repente, o sono vem antes que perceba? Já aconteceu de esquecer o nome de algo que precisava saber naquele momento, e fez de tudo para lembrar? Já colocou a mão sobre a cabeça, franziu a testa, mas nada de a palavra vir à mente, mas aí quando desiste, como num passe de mágica, a lembrança vem à mente? Quanto mais você ativa a parte consciente da mente, menos o subconsciente trabalha. Não é possível controlarmos diretamente o subconsciente, então não adianta forçar.


           
Nós precisamos então ter cuidado com nossas mentes. Em nosso desenvolvimento e formas de interação, os tipos de interpretação, edição, roteirização das informações criam tanto nossas expectativas, quanto nossas identidades. Estamos sempre sob a influência da geração de informações / estímulos que recebemos; e nesse princípio, a mente segue alterando comportamentos, certezas e sentimentos.

Prof.ª Ms. Claudia Nunes (23.06.20)


Referência:

ARRUDA, Michael. Desbloqueie o poder da sua mente: programe o seu subconsciente para se libertar das dores e inseguranças, e transforme a sua vida. São Paulo: Editora Gente, 2018.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Pensando em AUTORREALIZAÇÃO a partir de Maslow

 

            Em meio a pandemia, que tal nós, professores, apostarmos no potencial aprendente? Difícil pensar diferente? Difícil sair da caixinha e agir por instinto e experimentar outros comportamentos ou recursos? É sim. É difícil sim. Mas que tal só experimentar? Enquanto reclamamos, impedimos nossa própria adaptação ao que nos aconteceu e, com isso, eliminamos a possibilidade de aprender do aprendente. Hoje estou lendo um pouco sobre a psicologia humanista de Maslow. A quarentena tem sido de grandes descobertas sobre mim mesmo, também na seara dos conhecimentos pedagógicos. Estou só me experimentando e conhecendo outros autores ou áreas de saber.

Maslow pensou no homem saudável, seus comportamentos, suas necessidades e autorrealizações. Foi e (no meu caso) ainda é uma nova visão sobre a psicologia humana, e influenciou, não somente a educação, como também, o campo dos negócios. Como sempre, outro autor cuja infância e juventude foram marcadas por problemas de interação social e de educação muito rigorosa; além disso, foi muito rejeitado por ser judeu. Impressionante como, ao ler a biografia de diferentes autores que influenciaram a educação, eu me deparo com situações de exceção (guerras) ou traumas em seu psicologismo, no período da infância ou juventude, como fatores que estimular suas criatividades em diferentes áreas de saber.

No caso de Maslow, em seus estudos universitários, a área escolhida para aprofundamento foi a psicologia. Depois do doutorado, publicou sua primeira hierarquia de necessidades, um esboço daquela que seria terminada anos depois. Maslow teve como mentor Alfred Adler e montou sua teoria da Autorrealização com base nos rastros das personalidades de Erich Fromm, Einstein e outros.

A pirâmide de Maslow, também chamada de hierarquia das necessidades de Maslow, conceito criado na década de 50 para “determinar o conjunto de condições necessárias para que um indivíduo alcance a satisfação, seja ela pessoal ou profissional”. Tais condições vão desde aquelas necessárias à sobrevivência até às mais complexas, em uma hierarquia de satisfações motivadoras.

Em princípio, há cinco níveis: fisiologia, segurança, amor e relacionamentos, estima e realização pessoal. Mas, mais recentemente, foram incluídos mais três níveis, a saber:

NIVEIS DE NECESSIDADES de Maslow

Necessidades Fisiológicas

São as necessidades mais básicas que precisam ser saciadas para manter o corpo saudável e garantir a sobrevivência, a saber: processos de homeostase (sentimento da temperatura corporal, funcionamento hormonal, entre outros); processos de respiração, sono e digestão; saciamento de fome e sede; disponibilidade de abrigo.

Necessidades de Segurança

A necessidade de segurança engloba mais do que a presença de um abrigo. A saber: estabilidade no emprego: renda garantida; segurança do corpo: abrigo seguro, proteção contra ameaças; segurança da saúde: planos de saúde, ausência de doenças; segurança da família: seguros de vida; segurança da propriedade: casa própria, garantia de proteção aos seus bens. Ou seja, esse nível da pirâmide trata das sensações de proteção e garantias de soluções perante a situações que estão fora do controle do indivíduo. Planos de saúde são um exemplo de necessidades de segurança.

Necessidades de Amor e Relacionamentos

Relacionadas com o senso de pertencimento e intimidade, fatores essenciais para a felicidade humana. Evoluímos, afinal, de maneira social. É importante para os esquemas de motivação. A saber: Amizades; Família; Relacionamentos amorosos; Intimidade sexual; Intimidade platônica; Pertencimento a grupos ou sociedades (igreja, escola, grupos de atividades, grupos de interesses em comum); Identificação e aceitação perante a seus pares.

Necessidades de Estima

Sensação de ser estimado. Além de precisar desenvolver a habilidade de reconhecer suas potencialidades; que seus pares reconheçam e identifiquem seu valor no grupo. A saber: autoestima; confiança; conquistas e realizações; reconhecimento dos pares; respeito dos outros; respeito aos outros; conquistas e reconhecimento.

Necessidades de Realização Pessoal

São mais complexas necessidades do ser humano e, por isso, essenciais para que o indivíduo alcance a verdadeira realização pessoal e profissional. A saber: moralidade; valores; independência: autossuficiência e liberdade; criatividade; espontaneidade; controle; autoconhecimento. É preciso muito trabalho, reflexão e conhecimento de si para satisfazer essas necessidades.

Necessidade de aprendizado

O indivíduo sente ânsia de aprender, conhecer e compreender o mundo à sua volta.

Necessidade de satisfação estética

A busca pela perfeição, simetria, beleza e arte.

Necessidade de transcendência

Fé, espiritualidade, conexão com a natureza, aceitação da mortalidade.

Quadro organizado a partir da fonte: https://www.sbcoaching.com.br/blog/piramide-de-maslow/

Mas, e as perguntas iniciais? Como apostar no potencial humano através da psicologia humanista? Segundo Maslow, nós devemos compreender as necessidades humanas para seu crescimento cujo ponto culminante seria o movimento de autorrealização. Eis aí a representação de todo o potencial humano, quando adequada e continuamente estimulado. Neste sentido, eu fico pensando: todo comportamento reflete tanto as necessidades humanas, quanto a ausência de respeito a elas. A autorrealização é a parte que cabe desenvolver nas escolas, nas salas de aula, nos grupos familiares, enquanto os aprendentes se desenvolvem biologicamente e para que se fortaleçam emocional e cognitivamente. Na maturação das interconexões neuronais, a partir do acesso e assimilação das informações, a autorrealização acontece.

Além de Maslow, nós precisamos ler Carl Rogers, Victor Frank e Erich Fromm, por exemplo, e a chamada Terceira Força. Em tempos de pandemia, talvez (estou apenas começando os estudos), seja necessário que nós, professores, entendamos o valor da descoberta de si mesmo (dos aprendentes) para o acontecimento de autorrealização no futuro. Esta é uma capacidade aprendida juntando diferentes saberes, de forma consciente, para que, na medida em que o córtex frontal esteja desenvolvido, as escolhas e as decisões ocorram com equilíbrio e atenção.

Segundo alguns textos pesquisados na Internet, “a teoria da autorrealização de Maslow propõe que o homem é um todo integrado e organizado; mas que, cada um tem necessidades hierárquicas que devem ser satisfeitas. Essas necessidades são fisiológicas, afetivas e de autorrealização, e devem ser resolvidas a partir da base da pirâmide, que são as necessidades fisiológicas, de segurança, afetivas e de autoestima”.

Em tempos de ensino remoto, será possível pensar desta forma? Agora nós, professores, temos outra medida de tempo e menos mobilidades pela cidade para ensinar. Será que temos tempo para pensar como nosso aprendente aprende e, principalmente, quais são suas reais necessidades? Se, em quarentena, estamos nos adaptando por uma questão de saúde mental, por que não nos adaptar respeitosamente às necessidades de nossos aprendentes mantendo, pelo menos, uma rotina de estudos de qualidade e significativa?

Muitos professores me perguntarão: como? Todos estamos distantes. Os sentidos necessários para o trabalho da percepção e da atenção (audição e visão) destas questões estão muito limitados ou mediados pela máquina. Então como? Bem comece se perguntando: quais são suas (deles) necessidades? Todo o processo de ensino-aprendizagem pode, em princípio, apenas se basear no sentido da palavra NECESSIDADE. Em linha sequencial, a MOTIVAÇÃO torna-se uma das grandes necessidades humanas e o ESTÍMULO, uma das fontes para se criar a motivação e a necessidade e, nessa linha triádica, se sustenta bem a questão da AUTORREALIZAÇÃO.

Nós, professores, poderíamos nos apresentar como grandes estimuladores ou motivadores destes aprendentes a ponto de torná-los ‘metamotivadores’ que, segundo Maslow, a partir de estímulos positivos, seriam os exploradores das próprias necessidades básicas para a autorrealização. É um quebra-cabeças motivacional cujo resultado serão os ‘peaks’ (experiências de pico), momentos em que, de acordo com Maslow, nossos aprendentes sentem grande vontade de aprender e experimentar o que aprenderam. Momentos de imersão em sua própria experiência de aprendizagem.

Só alguns lembretes: hoje em dia, a pirâmide é analisada e aplicada com mais flexibilidade; em muitos casos, não há necessidade de todos os itens de um nível serem satisfeitos para que o aprendente passe para o segundo nível como num jogo de videogame; sendo assim, a autorrealização nunca se completa porque surgem sempre novos objetivos e sonhos (novas necessidades no pico da pirâmide); é possível que determinados fatores em um dos níveis não sejam relevantes para a motivação; é possível, em determinado momento, haver mistura de fatores de níveis diversos e, assim mesmo, criar e manter a motivação e a criatividade; e mesmo que a autorrealização demore a acontecer, o autoconhecimento está em pleno andamento pela superação de cada dificuldade no processo de aprendizagem; e, por fim, o acontecimento de frustrações, medos, angústias e inseguranças podem ser interpretados tanto como motivadores para o alcance de determinadas necessidades com mais coerência; como também “consequências da falha no cumprimento de determinadas necessidades”.

Talvez devamos pensar melhor sobre o conceito de HIERARQUIA dadas tantas flexibilidades. Mas, pelo menos, diante da pirâmide de Maslow, nós podemos reconhecer quais necessidades devem ser atingidas, em nossos aprendentes, para estimular seus sentidos, sua motivação, sua imaginação, sua criatividade, de forma a se interessarem pela manutenção da própria aprendizagem, mesmo dentro de uma rotina de estudos em geral ou a distância.

Nesta perspectiva, quando voltarmos ao ‘novo normal’ da sala de aula física, nós, professores, poderemos investir em boas experiências pedagógicas que gerem, no futuro, a autorrealização.

Ah vou lembrar: com a presença do autoconhecimento e da autorrealização (utilização do potencial pessoal como impulso para manter a motivação para aprender e alcançar expressivamente seus objetivos ou sonhos), ações de empatia, resiliência, solidariedade e equilíbrio emocional ocorrerão simples e naturalmente em nossa sociedade.

Referência:

https://amenteemaravilhosa.com.br/biografia-de-abraham-maslow/

https://www.sbcoaching.com.br/blog/piramide-de-maslow/

Indicações de leitura: Motivação e Personalidade, publicado em 1954;  Psicologia do Ser, 1962;  A Psicologia da Ciência, 1966.

Prof.ª Ms. Claudia Nunes (16.06.20)

quarta-feira, 10 de junho de 2020

ANTIFRÁGIL: indicação e primeiras impressões



ANTIFRÁGIL: indicação e primeiras impressões

            Enquanto o isolamento não passa, estou lendo livros por indicação. E nas últimas semanas, o livro ANTIFRÁGIL vem surgindo muitas vezes em grupos de whatzap. E olhem que são grupos com perfis diversos. Então cá estou apresentando algumas lições aprendidas com sua parcial leitura.

            Já, no prologo, nós lemos o seguinte: não devemos ter uma atitude submissa diante da incerteza ou da aleatoriedade. Não queremos apenas sobreviver à incerteza, nem pura e simplesmente passar por ela. Queremos sobreviver à incerteza e, além disso — como certo tipo de romanos estoicos agressivos —, ter a última palavra. O objetivo é saber domesticar, até mesmo dominar e conquistar o invisível, o opaco e o inexplicável. Entao como seria isso? Como faríamos isso?

Algumas coisas se beneficiam dos impactos; elas prosperam e crescem quando são expostas à volatilidade, ao acaso, à desordem e aos agentes estressores, e apreciam a aventura, o risco e a incerteza. Ainda assim, não existe uma palavra para designar exatamente o oposto de frágil; logo o autor a chamará de antifrágil.

A antifragilidade não se resume à resiliência ou à robustez. O resiliente resiste a impactos e permanece o mesmo; o antifrágil fica melhor. Essa propriedade está por trás de tudo o que vem mudando com o tempo: a evolução, a cultura, as ideias, as revoluções, os sistemas políticos, a inovação tecnológica, o sucesso cultural e econômico, a sobrevivência das empresas, as boas receitas de cozinha [...], o surgimento de cidades e culturas, os sistemas jurídicos, as florestas equatoriais, a resistência bacteriana... até mesmo a nossa própria existência como espécie neste planeta. E a antifragilidade determina o limite entre o que é vivo e orgânico (ou complexo), como o corpo humano, e o que é inerte, digamos, um objeto físico como o grampeador em sua mesa.

O antifrágil aprecia a aleatoriedade e a incerteza, o que também significa — acima de tudo — apreciar os erros, ou pelo menos certo tipo de erro. A antifragilidade tem uma propriedade singular de nos capacitar a lidar com o desconhecido, de fazer as coisas sem compreendê-las — e fazê-las bem. Permita-me ser mais incisivo: somos muito melhores agindo do que pensando, graças à antifragilidade. Eu preferiria ser ignorante e antifrágil a extremamente inteligente e frágil, em qualquer ocasião.

É fácil perceber coisas em torno de nós que apreciam um pouco de estressores e de volatilidade: sistemas econômicos, seu corpo, sua nutrição (diabetes e muitas doenças modernas similares parecem estar associados à falta de aleatoriedade na alimentação e à ausência de um agente estressor, a fome ocasional), sua psique. Há até mesmo contratos financeiros que são antifrágeis — explicitamente projetados para se beneficiar da volatilidade do mercado.

A antifragilidade nos faz entender melhor a fragilidade. Da mesma forma que não podemos melhorar a saúde sem reduzir a doença, ou aumentar a riqueza sem, primeiro, diminuir os prejuízos, antifragilidade e fragilidade são graus em um espectro.

Entenderam?

Para nos tornamos melhores, precisamos aprender a tomar decisões, mesmo diante das incertezas, urgências ou dúvidas. E tais decisões são devem ser aplicáveis em todos os setores profissionais e sociais. [...] Onde quer que reine o desconhecido, em qualquer situação em que haja aleatoriedade, imprevisibilidade, opacidade ou a compreensão incompleta das coisas; lá está a antifragilidade; lá estarão os antifrágeis; lá talvez estaremos nós.

Apontar fragilidades é fácil; prever a ocorrencia de um evento capaz de prejudicá-lo, não. A fragilidade pode ser medida; o risco, não (à exceção de cassinos ou da mente de pessoas que se dizem “especialistas em risco”). [...] A sensibilidade aos danos causados pela volatilidade é remediável, mais ainda do que a predição do evento que poderia causar o dano.

Uma leitura: tudo o que surgir a partir de eventos aleatórios (ou de certos impactos) e que apresentar mais vantagens do que desvantagens será antifrágil; o inverso será frágil. Então não nos privemos da volatilidade, da aleatoriedade e de agentes estressores. Nós nos tornaremos fracos, tenderemos a morte ou à destruição. Somos sistemas complexos que morremos caso sejamos privados de agentes estressores; nós precisamos de estímulos intensos (e até desgastantes) para qualificarmos nossa curiosidade, criatividade e imaginação nas diversas formas de relação. Nós nos movemos, interagimos e nos expandimos através da dúvida, da curiosidade, da experiência. Não ‘ofendamos’ os antifrágeis. Se quase tudo aquilo que vem de cima para baixo fragiliza e bloqueia a antifragilidade e o crescimento, tudo que vai de baixo para cima prospera sob a quantidade certa de tensão e desordem.

O processo de descoberta (ou de inovação, ou de progresso tecnológico) em si depende de ajustes antifrágeis e da assunção agressiva de riscos, mais do que da educação formal. E, em nenhum momento da história, tantas pessoas que não assumem riscos, ou seja, aquelas sem qualquer exposição pessoal, exerceram tanto controle. A principal regra ética é a seguinte: não terás a antifragilidade à custa da fragilidade dos outros.

Prof.ª Claudia Nunes (10.06.20)


QUAL É A SUA RAZÃO DE SER? (Ikigai, o segredos dos japoneses para uma vida longa e feliz





QUAL É A SUA RAZÃO DE SER?

Em tempos de isolamento social e quarentena, eu tenho lido partes de diferentes livros. Algo que não fazia há muito tempo. Antes tinha mais foco em determinados temas e organizava o tempo para ler um pouco de tudo na hora certa. Agora, depois de mais de 80 dias em casa, perdi a noção das horas e pego os livros à revelia, dia a dia. Alguns consigo atenção por mais de 4 capítulos; outros, apenas gosto de manusear e folhear a esmo, lendo apenas um ou dois capítulos. Hoje comecei a ler um livro chamado IKIGAI, o segredo dos japoneses para uma vida longa e feliz, de Hector Garcia e Francesc Miralles e descobri uma outra dimensão de pensamento e de atuação para/na vida.

Segundo os autores, segundo os japoneses, todo mundo possui um ikigai, o que um filósofo francês traduziria como raison d’être, razão de ser. Alguns encontraram seu ikigai e têm consciência dele, outros o carregam dentro de si, mas ainda o procuram. O ikigai está escondido em nós e é necessária uma investigação paciente para chegar até o mais profundo de nosso ser e encontrá-lo. De acordo com os nativos de Okinawa, a ilha com maior índice de centenários do mundo, o ikigai é a razão pela qual nos levantamos pela manhã.

Ter um ikigai claro e definido, uma grande paixão, dá satisfação, felicidade e significado à vida. [...] Uma das coisas mais surpreendentes de se notar ao viver por algum tempo no Japão é como as pessoas continuam ativas, inclusive depois de se aposentarem. Na verdade, um grande número de japoneses nunca se “aposenta”, mas sim segue trabalhando naquilo de que gosta, a menos que a saúde não permita. Na verdade, não existe na língua japonesa uma palavra que signifique “aposentar-se” no sentido de “retirar-se para sempre”, como temos no Ocidente. Base: “ter um propósito é tão importante nessa cultura que eles não têm nosso conceito de aposentadoria”. (Jan Buettner, jornalista da National Geographic).

Alguns estudos sobre a longevidade sugerem que ter uma vida em comunidade e um ikigai claro é tão ou mais importante do que a saudável dieta japonesa. O conceito [...] está especialmente enraizado em Okinawa, uma das chamadas “zonas azuis”, onde vivem as pessoas mais longevas do mundo. Essa ilha tem o maior índice do planeta de pessoas com mais de cem anos por cem mil habitantes. [...] Além de viverem muito mais que o restante da população mundial, é menor o seu histórico de doenças crônicas como câncer ou patologias cardíacas; enfermidades inflamatórias também são menos comuns.

Nesta cidade há um grande número de centenários com um nível de vitalidade invejável e um estado de saúde que seria impensável para anciãos de outras localidades. Seu sangue apresenta um nível mais baixo de radicais livres, que são os responsáveis pelo envelhecimento celular, graças à cultura do chá e ao costume de se alimentar apenas até saciar 80% do estômago. A menopausa é muito mais suave e, de maneira geral, homens e mulheres mantêm um nível elevado de hormônios sexuais até idades muito avançadas.

O índice de casos de demência é notavelmente mais baixo do que a média da população mundial. De acordo com os autores, [...] um importante responsável pela saúde e longevidade dos habitantes de Okinawa é sua atitude “ikigai” diante da vida, que os faz buscar um sentido profundo em cada dia.

Antes de tudo, entendamos o sentido da palavra: Ikigai se escreve 生き甲斐, onde 生き significa “vida” e 甲斐 significa “valer a pena”. Pode-se decompor 甲斐 em , que significa “armadura”, “número um”, “ser o primeiro a ir (à frente de uma batalha, tomando a iniciativa e a liderança)”, e , que significa “elegante”, “belo”.

O livro afirma que existem CINCO ZONAS AZUAS, assim são denominadas pelos cientistas e demógrafos, as regiões em que há muitos casos de longevidade. [...] As cinco regiões identificadas e analisadas por Buettner em um de seus livros sobre as zonas azuis são:

1. Okinawa, Japão (sobretudo, o norte da ilha). A dieta da região inclui muitas verduras e tofu. Seus habitantes comem em pratos pequenos. Em sua expectativa de vida, além da filosofia ikigai, é importante o conceito de “moai” (grupo de amigos muito próximos), que veremos a seguir.

2. Sardenha, Itália (especificamente as províncias de Nuoro e Ogliastra). Seus habitantes consomem muitas verduras e vinho. Trata-se de comunidades muito unidas, o que exerce grande influência na longevidade.

3. Loma Linda, Califórnia. Os pesquisadores estudaram um grupo de adventistas do sétimo dia que estão entre os mais longevos dos Estados Unidos.

4. Península de Nicoya, Costa Rica. Muitos nativos passam dos noventa anos com uma vitalidade admirável. Grande parte dos anciãos se levanta às 5h30, sem grandes dificuldades, para trabalhar no campo.

5. Icária, Grécia. Um em cada três habitantes dessa ilha próxima à costa turca tem mais de noventa anos, o que lhe valeu o apelido de “a ilha da longevidade”. [...] Ao que parece, o segredo dos nativos remonta a um estilo de vida existente desde o ano 500 a.C.

A obrigação de ajudar uns aos outros constitui para muitas pessoas um ikigai poderoso o suficiente para continuar vivendo. Segundo os cientistas que compararam a vida nas cinco zonas azuis, os segredos para uma vida longa são a dieta, o exercício, ter um propósito (um ikigai) e boas ligações sociais, ou seja, muitos amigos e boas relações na família. Essas comunidades administram bem o seu tempo para reduzir o estresse, comem pouca carne e alimentos processados e ingerem álcool com moderação. Os exercícios praticados por seus integrantes não são extremos, mas eles se movimentam todos os dias para passear ou ir à horta. Os habitantes das zonas azuis preferem caminhar a usar um carro. Em todas elas, é muito comum a prática da jardinagem, que requer movimento físico diário, mas de baixa intensidade.

Um dos provérbios mais populares em Okinawa é Hara hachibu, que significa algo como “A barriga a 80%” e é dito antes e depois das refeições. A sabedoria ancestral recomenda não comer até ficar cheio. Por isso, em vez de se saciarem, obrigando o corpo a se desgastar e acelerando a oxidação celular com uma longa digestão, os nativos param de comer quando sentem que seu estômago está 80% cheio. Talvez algo tão simples assim seja um dos segredos da longa vida dos okinawanos.

A dieta deles é rica em tofu, batata-doce, peixe (três vezes por semana) e muitas verduras (trezentos gramas por dia). [...] Ao dividi-la em vários pratos pequenos, os japoneses tendem a comer menos.

O MOAI é uma tradição de Okinawa — e também de Kagoshima — para formar laços fortes nas comunidades locais. O moai é um grupo informal de pessoas com interesses comuns que se ajudam. Para muitos, o serviço comunitário se converte em um de seus ikigais.

A origem dos moais vem de tempos difíceis, quando os agricultores se reuniam para trocar informação sobre as melhores formas de cultivar, assim como para ajudar uns aos outros nos anos em que a colheita não havia sido boa. Os membros de um moai têm que pagar uma quantia mensal preestabelecida. Esse pagamento lhes permite participar de reuniões, jantares, partidas de go (um jogo de tabuleiro de origem chinesa), de shogi (o xadrez japonês) ou desfrutar de qualquer que seja o hobby comum do grupo. [...] Estar em um moai ajuda a manter a estabilidade emocional e também a financeira.

Então quais seriam as causas do envelhecimento prematuro no mundo moderno?

Prof.ª Ms Claudia Nunes (09.06.20)


A árvore do conhecimento: síntese


(HARARI, Yuval Noan. Livro Sapiens, uma breve história da humanidade. Parte 1, capítulo 2)

A África Oriental há 150 mil anos, apenas por volta de 70 mil anos atrás eles começaram a dominar o resto do planeta Terra e levar as demais espécies humanas à extinção. Eles não gozavam de qualquer vantagem notável sobre outras espécies humanas, não produziam ferramentas particularmente sofisticadas e não realizavam nenhum outro feito especial. Os neandertais levaram a melhor (...) e os sapiens acabaram por se retirar, deixando os neandertais como senhores do Oriente Médio.

A partir de 70 mil anos atrás, o Homo sapiens começou a fazer coisas muito especiais. Eles expulsaram os neandertais e todas as outras espécies humanas não só do Oriente Médio como também da face da Terra e, num período incrivelmente curto, eles se espalharam pela Europa, Ásia e chegaram à Austrália, um continente até então intocado por humanos.

O período de 70 mil anos atrás a 30 mil anos atrás testemunhou a invenção de barcos, lâmpadas a óleo, arcos e flechas e agulhas (essenciais para costurar roupas quentes). Surgem os primeiros objetos chamados de arte e joalheria; além dos primeiros indícios incontestáveis de religião, comércio e estratificação social. A maioria dos pesquisadores acredita que essas conquistas sem precedentes foram produto de uma revolução nas habilidades cognitivas dos sapiens. O surgimento de novas formas de pensar e se comunicar, entre 70 mil anos atrás a 30 mil anos atrás, constitui a Revolução Cognitiva. O que a causou? Não sabemos ao certo.

A teoria mais aceita afirma que mutações genéticas acidentais mudaram as conexões internas do cérebro dos sapiens, possibilitando que pensassem de uma maneira sem precedentes e se comunicassem usando um tipo de linguagem totalmente novo. Poderíamos chamá-las de mutações da árvore do conhecimento. E até onde pudemos verificar, foi uma questão de puro acaso. Mas é mais importante entender as consequências das mutações da árvore do conhecimento do que suas causas. O que havia de tão especial na nova linguagem dos sapiens que nos permitiu conquistar o mundo?

Todos os animais têm alguma forma de linguagem. Até mesmo os insetos, como abelhas e formigas, sabem se comunicar de maneiras sofisticadas, informando uns aos outros sobre o paradeiro de alimentos. Tampouco foi a primeira linguagem vocal. Muitos animais, incluindo todas as espécies de macaco, têm uma linguagem vocal. [...] O que, então, há de tão especial em nossa linguagem? A resposta mais comum é que nossa linguagem é incrivelmente versátil. Podemos conectar uma série limitada de sons e sinais para produzir um número infinito de frases, cada uma delas com um significado diferente. Podemos, assim, consumir, armazenar e comunicar uma quantidade extraordinária de informação sobre o mundo à nossa volta.

[...] Uma segunda teoria concorda que nossa linguagem singular evoluiu como um meio de partilhar informações sobre o mundo. Mas as informações mais importantes que precisavam ser comunicadas eram sobre humanos, e não sobre leões e bisões. Nossa linguagem evoluiu como uma forma de fofoca. De acordo com essa teoria, o Homo sapiens é antes de mais nada um animal social. A cooperação social é essencial para a sobrevivência e a reprodução. Não é suficiente que homens e mulheres conheçam o paradeiro de leões e bisões. É muito mais importante para eles saber quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro.

[...] As novas habilidades linguísticas que os sapiens modernos adquiriram há cerca de 70 milênios permitiram que fofocassem por horas a fio. Graças a informações precisas sobre quem era digno de confiança, pequenos grupos puderam se expandir para bandos maiores, e os sapiens puderam desenvolver tipos de cooperação mais sólidos e mais sofisticados. A teoria da fofoca pode parecer uma piada, mas vários estudos a corroboram. Ainda hoje, a maior parte da comunicação humana – seja na forma de e-mails, telefonemas ou colunas nos jornais – é fofoca. É tão natural para nós que é como se nossa linguagem tivesse evoluído exatamente com esse propósito. [...] A fofoca normalmente gira em torno de comportamentos inadequados. [...] Muito provavelmente, tanto a teoria da fofoca quanto a teoria do leão perto do rio são válidas.

Mas a característica verdadeiramente única da nossa linguagem não é sua capacidade de transmitir informações sobre homens e leões. É a capacidade de transmitir informações sobre coisas que não existem. Até onde sabemos, só os sapiens podem falar sobre tipos e mais tipos de entidades que nunca viram, tocaram ou cheiraram. Lendas, mitos, deuses e religiões apareceram pela primeira vez com a Revolução Cognitiva. [...] Graças à Revolução Cognitiva, o Homo sapiens adquiriu a capacidade de dizer: “O leão é o espírito guardião da nossa tribo”.

Essa capacidade de falar sobre ficções é a característica mais singular da linguagem dos sapiens. Mas a ficção pode ser perigosamente enganosa ou confusa. Ainda assim, [...] a ficção nos permitiu não só imaginar coisas como também fazer isso coletivamente: os MITOS. [...] Tais mitos dão aos sapiens a capacidade sem precedentes de cooperar de modo versátil em grande número. [...] Os sapiens podem cooperar de maneiras extremamente flexíveis com um número incontável de estranhos. É por isso que os sapiens governam o mundo, ao passo que as formigas comem nossos restos e os chimpanzés estão trancados em zoológicos e laboratórios de pesquisa.

Os humanos, como os chimpanzés, têm instintos sociais que possibilitaram aos nossos ancestrais construir amizades e hierarquias e caçar ou lutar juntos. No entanto, como os instintos sociais dos chimpanzés, os dos humanos só eram adaptados para pequenos grupos íntimos. Quando o grupo ficava grande demais, sua ordem social se desestabilizava, e o bando se dividia.

Após a Revolução Cognitiva, a fofoca ajudou o Homo sapiens a formar bandos maiores e mais estáveis. Mas até mesmo a fofoca tem seus limites. Pesquisas sociológicas demonstraram que o tamanho máximo “natural” de um grupo unido por fofoca é de cerca de 150 indivíduos. A maioria das pessoas não consegue nem conhecer intimamente, nem fofocar efetivamente sobre mais de 150 seres humanos. [...] Quando o limite de 150 indivíduos é ultrapassado, as coisas já não podem funcionar.

[...] Se não forem capazes de se reinventar, acabam falindo. Mas como o homo sapiens conseguiu, ao longo do temo, fundar grandes impérios com centenas de milhões? O segredo foi provavelmente o surgimento da ficção. Um grande número de estranhos pode cooperar de maneira eficaz se acreditar nos mesmos mitos. Toda cooperação humana em grande escala – seja um Estado moderno, uma igreja medieval, uma cidade antiga ou uma tribo arcaica – se baseia em mitos partilhados que só existem na imaginação coletiva das pessoas. [...] Histórias que as pessoas inventam e contam umas às outras.

Não há deuses no universo, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis, nem justiça fora da imaginação coletiva dos seres humanos. [...] Contar histórias eficazes não é fácil. A dificuldade está não em contar a história, mas em convencer todos os demais a acreditarem nela. [...] Com o passar dos anos, as pessoas teceram uma rede incrivelmente complexa de histórias. [...] Os tipos de coisa que as pessoas criam por meio dessa rede de histórias são conhecidos nos meios acadêmicos como “ficções”, “construtos sociais” ou “realidades imaginadas”. Uma realidade imaginada não é uma mentira.

[...] Ao contrário da mentira, uma realidade imaginada é algo em que todo mundo acredita e, enquanto essa crença partilhada persiste, a realidade imaginada exerce influência no mundo. [...] Desde a Revolução Cognitiva, os sapiens vivem, portanto, em uma realidade dual. Por um lado, a realidade objetiva dos rios, das árvores e dos leões; por outro, a realidade imaginada de deuses, nações e corporações. Com o passar do tempo, a realidade imaginada se tornou ainda mais poderosa, de modo que hoje a própria sobrevivência de rios, árvores e leões depende da graça de entidades imaginadas, tais como deuses, nações e corporações.

A capacidade de criar uma realidade imaginada com palavras possibilitou que um grande número de estranhos coopere de maneira eficaz. Mas também fez algo mais. Uma vez que a cooperação humana em grande escala é baseada em mitos, a maneira como as pessoas cooperam pode ser alterada modificando-se os mitos – contando-se histórias diferentes. Nas circunstâncias adequadas, os mitos podem mudar muito depressa. Em 1789, a população francesa, quase da noite para o dia, deixou de acreditar no mito do direito divino dos reis e passou a acreditar no mito da soberania do povo. Em consequência, desde a Revolução Cognitiva o Homo sapiens tem sido capaz de revisar seu comportamento rapidamente de acordo com necessidades em constante transformação. Isso abriu uma via expressa de evolução cultural, contornando os engarrafamentos da evolução genética. Acelerando por essa via expressa, o Homo sapiens logo ultrapassou todas as outras espécies humanas em sua capacidade de cooperar.

O comportamento de outros animais sociais é determinado em grande medida por seus genes. O DNA não é um autocrata. O comportamento animal também é influenciado por fatores ambientais e por peculiaridades individuais. No entanto, em um ambiente estável, animais da mesma espécie tendem a se comportar de maneira similar. Em geral, mudanças significativas no comportamento social não podem ocorrer sem mutações genéticas. [...] Por razões similares, os humanos arcaicos não iniciavam revoluções. Até onde sabemos, as mudanças nos padrões sociais, a invenção de novas tecnologias e a consolidação de novos hábitos decorreram mais de mutações genéticas e pressões ambientais do que de iniciativas culturais. É por isso que levou centenas de milhares de anos para os humanos darem esses passos.

Há 2 milhões de anos, mutações genéticas resultaram no surgimento de uma nova espécie humana chamada Homo erectus. Seu surgimento foi acompanhado pelo desenvolvimento de uma nova tecnologia de ferramentas de pedra, hoje reconhecida como uma característica decisiva dessa espécie. Enquanto o Homo erectus não passou por novas alterações genéticas, suas ferramentas de pedra continuaram mais ou menos as mesmas – por quase 2 milhões de anos!

Por sua vez, desde a Revolução Cognitiva, os sapiens têm sido capazes de mudar seu comportamento rapidamente, transmitindo novos comportamentos a gerações futuras sem necessidade de qualquer mudança genética ou ambiental. Por exemplo, considere o advento repetido de elites sem filhos, como a classe sacerdotal católica, as ordens monásticas budistas e as burocracias eunucas chinesas. [...] Em outras palavras, enquanto os padrões de comportamento dos humanos arcaicos permaneceram inalterados por dezenas de milhares de anos, os sapiens conseguem transformar suas estruturas sociais, a natureza de suas relações interpessoais, suas atividades econômicas e uma série de outros comportamentos no intervalo de uma ou duas décadas.

[...] Em uma briga de um para um, provavelmente um neandertal teria derrotado um sapiens. Mas em um conflito de centenas, os neandertais não teriam uma chance sequer. Os neandertais podiam partilhar informações sobre o paradeiro de leões, mas provavelmente não podiam contar – e revisar – histórias sobre espíritos tribais. Sem a capacidade de criar ficção, os neandertais não conseguiam cooperar efetivamente em grande número nem adaptar seu ambiente social para responder aos desafios em rápida transformação. [...] Os sítios de neandertais não têm indícios de tal escambo. [...] E nenhum outro animal além do sapiens pratica o comércio, e todas as redes de comércio dos sapiens sobre as quais temos informações detalhadas se baseiam em ficções. O comércio não pode existir sem confiança, e é muito difícil confiar em estranhos. [...] As técnicas de caça são outro exemplo dessas diferenças. Os neandertais geralmente caçavam sozinhos ou em pequenos grupos. Os sapiens, por outro lado, desenvolveram técnicas que se apoiavam na cooperação entre dezenas de indivíduos, e talvez até mesmo entre bandos diferentes.

O que aconteceu na Revolução Cognitiva? - A imensa diversidade de realidades imaginadas que os sapiens inventaram e a diversidade resultante de padrões de comportamento são os principais componentes do que chamamos “culturas”. Desde que apareceram, as culturas nunca cessaram de se transformar e se desenvolver, e essas alterações irrefreáveis são o que denominamos “história”. A Revolução Cognitiva é, portanto, o ponto em que a história declarou independência da biologia. Até a Revolução Cognitiva, os feitos de todas as espécies humanas pertenciam ao reino da biologia, ou, se quisermos, da préhistória (expressão do autor).

[...] A partir da Revolução Cognitiva, as narrativas históricas substituem as narrativas biológicas como nosso principal meio de explicar o desenvolvimento do Homo sapiens. Para entender a ascensão do cristianismo ou a Revolução Francesa, não basta compreender a interação entre genes, hormônios e organismos. É necessário, também, levar em consideração a interação entre ideias, imagens e fantasias. Isso não significa que o Homo sapiens e a cultura humana tenham se tornado isentos de leis biológicas. Ainda somos animais, e nossas capacidades físicas, emocionais e cognitivas continuam sendo moldadas por nosso DNA. [...] No entanto, é um erro procurar as diferenças no nível do indivíduo ou da família. Nas comparações entre indivíduos, ou mesmo entre grupos de dez, somos embaraçosamente similares aos chimpanzés. As diferenças significativas só começam a aparecer quando ultrapassamos o limite de 150 indivíduos, e, quando chegamos a mil ou 2 mil indivíduos, as diferenças são assombrosas.

[...] A diferença real entre nós e os chimpanzés é a cola mítica que une grandes quantidades de indivíduos, famílias e grupos. Essa cola nos tornou os mestres da criação. É claro, também precisamos de outras coisas, como a capacidade de confeccionar e usar ferramentas. Mas a confecção de ferramentas é insignificante se não estiver associada com a capacidade de cooperar com muitas outras pessoas. [...] Fisiologicamente, não houve qualquer melhoria significativa em nossa capacidade de confeccionar ferramentas nos últimos 30 mil anos. Albert Einstein era muito menos hábil com as mãos do que um antigo caçador-coletor. No entanto, nossa capacidade de cooperar com um grande número de estranhos aumentou consideravelmente.

[...] Para resumir as relações entre a biologia e a história após a Revolução Cognitiva: a. A biologia estabelece os parâmetros básicos para o comportamento e as capacidades do Homo sapiens. Toda a história acontece dentro dos limites dessa arena biológica.; b. No entanto, essa arena é extraordinariamente grande, possibilitando que os sapiens joguem uma incrível variedade de jogos. Graças à sua habilidade de criar ficções, os sapiens inventam jogos cada vez mais complexos, que cada geração desenvolve e elabora ainda mais.; c. Em consequência, a fim de entender como os sapiens se comportam, devemos descrever a evolução histórica de suas ações.

 

Prof.ª Ms. Claudia Nunes (08.06.20)

 

Nada nunca é igual

  Nada nunca é igual   Enquanto os dias passam, eu reflito: nada nunca é igual. Não existe repetição. Não precisa haver morte ou decepçã...