segunda-feira, 7 de março de 2011

LEITURA DISCENTE, RESPEITO!

Hoje é segunda de Carnaval e o país está em festa. Em meio às minhas atividades folias, estou lendo revistas e jornais com mais calma e atenção. Sem muitas responsabilidades profissionais, fico indo e vindo em minhas escolhas, e as informações vão se acumulando. Ainda assim, ler é uma das minhas preocupações. Como incentivar a leitura em meus alunos? Dia desses, ouvindo um bate papo na padaria, escutei a seguinte frase: ‘não adianta professor querer obrigar a ler, esse negócio é só para alguns...’ Fiquei intrigada. Será? Voltei para casa pensando em minhas didáticas e realmente percebi que ler, como a escola oferece, não é para todo mundo não. Ler é uma opção que se faz por interesse e gosto. Mesmo a escola apresentando formas de leitura e até mesmo a própria leitura (textos de diferentes autores), ler faz parte do princípio do prazer e só ocorre por escolha própria. Nem mesmo os textos introduzidos pelos professores ajudam. Cada aluno tem uma expectativa, uma experiência, um contexto, e aí é uma luta inglória. Só que por outro lado, a que leitura nos referimos? Machado de Assis? Clarice Lispector? Nelida Pinon? José de Alencar? São autores muito importantes e necessários sim, mas serão seduções reais à chamada geração Y? Minha experiência diz que não. Estes autores são seduções a posteriori, dentro de um costume de procurar leituras e ler. Tenho observado em minhas turmas de 1º ano do Ensino Médio melhor aceitação quanto a leitura porque iniciei o hábito, por exemplo, com textos pequenos: imagens, charges e piadas. Eu comecei com o que eu desejava ver em meus tempos de escola. Eu não esqueci que fui aluna e que nem sempre gostava das leituras pedidas. Mas adorava quando podia optar entre vários textos ou quando, dentro de cada conteúdo, eu lia as minhas preferências. Nunca fui de romances ‘água com açúcar’, mas amava os contos, as crônicas. Eu me lembro que tinha prazer ao saber rapidamente o fim da história. Então o que pensariam os meus alunos? Eles estão iniciando o hábito da leitura e precisam se interessar, gostar ou se admirar fazendo isso. Em cada aula, resolvi fazer experiências para ver quais seriam suas reações. Um dia distribui vários textos diferentes para leitura em dupla. Eles se sentiram incomodados. Conteúdo igual, mas questões diferentes. Ai promovi uma discussão. Cada dupla contou sua historia e discutimos o tema. Foi animado porque eles pensavam mais antes de argumentar, afinal os colegas estão escutando. Eu investi num movimento contrário: da obrigação ao prazer, à liberdade de expressão. A discussão sobre alguns temas ultrapassou a sala. De outra vez, pedi que trouxessem textos para leitura nos mesmos termos anteriores. O único entrave foram os esquecimentos. Isso gerou nova angustia: como participar se não tinham (alguns grupos) nada para ler e apresentar? A desilusão era clara. Precavida, levei várias opções temáticas e ai, mais do que as discussões, muitas perguntas foram feitas para além dos textos feitas no ‘grupão’ e foram resolvidas no ‘grupão’. Uma autonomia que eu não esperava tão rápida. E uma autonomia que exige outros conteúdos, mais profundidade, mais estudos para mim e mais criatividade para ministrar a próxima aula. A sala está completamente desorganizada. Alguns sentados na cadeira e nas mesas; outros de pé; alguns em roda; outros de frente para mim; e eu no centro da sala mediando tudo. Em muitos momentos, a discussão não precisava de mim, eu era espectadora e agi apenas confirmando / elogiando uma ou outra fala ou resposta. A leitura de mundo deles é séria, ainda que tradicional e com algumas repetições. Difícil é voltar à aula tradicional e linearizar o processo de aprendizagem. Ainda assim, lembro, os sentidos da palavra ‘ler’ precisam de respeito e nem todos os tem no tempo de uma discussão, daí a paciência docente. Para inteligências diferentes, seleções de gostos e interesses diferentes e leituras múltiplas. Docente, cuidado, seu aluno lê sim, mas lê o que admira, interessa e gosta, logo entenda esses itens e aproveite em suas práticas de ensino.

Profa Claudia

Um comentário:

Rubens Queiroz disse...

É difícil descobrir 0 desejo de ler do outro. Talvez um dia isso seja possível, mas até lá acho que só o fato de está se preocupando com eles já projetas um mundo melhor.
Parabéns.

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