quinta-feira, 24 de março de 2011

Um outro CARNAVAL

Hoje entendi a expressão ‘a ficha caiu’: o Carnaval passou. Hoje, na poltrona nova do meu quarto, releio o noticiário impresso sobre o resultado do Carnaval. Tudo é muito complicado. Antes a cidade tinha como certa a vitória da Beija Flor. Nada demais, afinal o povo é apaixonado por Roberto Carlos (RC). E depois do fogo repentino na Cidade do Samba, muita lenha caiu nessa fogueira: sua maior concorrente, Grande Rio, estava fora do páreo. As intuições / previsões eram várias, mas RC permanecia no pódio e nas apostas. Em meio às falas e ações de superação das escolas de samba atingidas, as análises suspeitavam outras concorrentes: Unidos da Tijuca, Imperatriz e Vila Isabel.

A cidade estava em ebulição sem precedentes. As pessoas contavam nos dedos a chegada dos dias de Momo e dos grandes desfiles. Enquanto isso, todos iam e vinham aos pulos, aos gritos, braços ao alto, vida esquecida, sorrisos marcantes por inúmeras vielas nos vários blocos de rua. O Carnaval é um ritual de passagem importante ao enfrentamento do Ano Novo no Brasil. Em cada percurso, a expansividade promove momentos encantados, divertidos e de muita sensualidade. O clima sustenta uma idéia: liberdade aos corpos e às mentes. Nesta liberdade, nossa mais importante brasilidade: um povo sem diferenças, repressões, recriminação e regras, solto pelas ruas e se sentindo ‘dono do mundo’!

Acordar, nestes dias de Carnaval, é uma aposta diária com a vida, suas surpresas e outros humanos. É verdade que a fantasia e as máscaras se desdobram, se explicitam e protegem, mas toda descaracterização tem limites. Essa é a hora do expurgo sem heranças, lembranças e alianças. A cada bumbo, pandeiro e tamborim batidos, tocados e ouvidos, éticas, normas, costumes e hábitos se eletrizam, enlouquecem e deixam a pele continuamente arrepiada.

No Rio de Janeiro, os blocos garantem o Carnaval popular; clubes, ginásios e casas de show refulguram com gente bonita e de estirpe; e as casas em geral ganham música, vizinhos e muita cor: ‘É Carnaval, o rio abre as portas para folia...’ É Carnaval e o povo adentra as ruas como uma tsunami sem freio. Os dois dias de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial agitam a cidade, suas mídias, seus becos, morros e bairros. A defesa da escola do coração é imprescindível e a vitória sempre é certa. Todos se esforçaram muito, fizeram seu melhor e acreditam no sucesso (recompensa). Isto é certo! Mas a vitória só chega para uma delas e o transe é perfeito!

O domingo é tenso: irritante ouvir comentários das ‘famosidades’ na TV sem conhecimento de causa em boa parte do tempo. Se os ‘gringos’ aportam aqui sem roupas, aumentando o nível de prostituição e acreditando que o mundo é Copacabana, tudo bem, mas Carnaval também é cultura, demanda contexto histórico, análises profissionais, informações mais claras e respeito ao telespectador. Mas, diante da distribuição do dinheiro e da reserva de mercado quanto à transmissão, perde o Carnaval, ignora-se o telespectador. Esclarecimentos, explicações e apontamentos síncronos, dentro dos quesitos julgados, são completamente ignorados. Ainda assim, uma exceção: ave Haroldo Costa! E por isso cadê Pamplona? Cadê Maria Augusta? Cadê até mesmo Lecy Brandão, Sandra de Sá ou Dudu Nobre? Estamos diante de uma TV insossa e acéfala.

Os desfiles passam: São Clemente, Imperatriz, Portela, Unidos da Tijuca, Vila Isabel e Mangueira. Carros maravilhosos, detalhes quase perfeitos, cores quentes e originais. Todavia uma pergunta não se cala: por que sempre carros tão grandes e largos? As metragens nunca batem apesar de o sambódromo ter as mesmas medidas sempre, por quê? Carnavalescos experientes esquecem as passarelas de um lado, e as curvas acentuadas, de outro. Carnavalescos experientes jogam destaques cada vez mais alto mesmo sabendo que a base foi construída em ferro exposto ao relento (sol e chuva) por quase 300 dias. Por quê? Por quê?

Bom os seis enredos passam e anunciam: somos ‘cariocas da gema’ sim, com DNAs multicoloridos, acreditando que ‘navegar é preciso’, sem medo, com força na peruca, com muita arte e cultura, porém construímos criatividades e sonhos, estética carnavalesca, sob ferragens e motores velhos e frágeis demais. Num domingo de retumbantes baterias, o povo escolhe suas preferidas: Unidos da Tijuca, Imperatriz e Mangueira. Esta última promove uma ‘paradona’ na avenida de arrepiar e recordável por anos a fio. Em quase todos os setores, ouve-se o grito do ‘já ganhou!’ ou ‘é campeã!’. Desconfio disso. Aprendi a desconfiar da preferência popular. É decepção certa. Tal e qual o prêmio americano Oscar, o melhor nunca vence e ai a sabedoria popular é perfeita: ‘cabeça de jurado e de camarão contém a mesma coisa’.

É noite de segunda-feira. União da Ilha, Salgueiro, Mocidade, Grande Rio, Porto da Pedra e Beija-Flor. Estou na avenida de novo! É noite cheia de lua cheia. O Salgueiro está sozinho na Presidente Vargas: está lindo! Seu vermelho ensangüenta as ruas como um todo e os flashs pipocam por toda parte. Depois da minha ‘águia’ portelense, que carro era aquele? Dava medo e não era da Unidos da Tijuca! Em frente a Candelária, aquele macaco imenso tapava sinos e prendia os olhos. Maravilhoso e angustiante: com 13m20cm, como faria uma curva e entraria num sambódromo de 14m de largura? Renato Laje e companhia não aprendem!

Volto para casa tensa: os carros do Salgueiro são imponentes, brilhantes e altamente sofisticados. Meu coração acelerou: é campeã! O rito do desfile começa. O palco da folia está tomado de expectativas e animação. Como em uma aula universitária, seguem mais seis enredos: a ciência darwiniana inaugura o seminário; exige luz, câmera e muita ação; semeia felicidade, fertilidade e esperança em todos os rostos e corpos; apresenta cidades e espaços em festa; aceita saudosismos e a vontade de ser criança; e traz experiências emocionantes de poetas antigos como Nelson Cavaquinho. Ai atravessa RC. Literalmente atravessa enredos, alegorias, harmonia, baterias e conjunto; atravessa nossos corações, invade nossas emoções e ocupa nosso imaginário.

As escolas estão se superando, tem um mesmo padrão de beleza e um ‘chão’ energético estonteante. Mas isso não vale ponto na baia julgadora. Diante da TV ou debaixo de chuva, os olhares fanáticos e àqueles julgadores in loco são completamente diferentes. Em nenhum momento denigro a performance ou o campeonato da Beija Flor, apenas reflito, triste, sobre a relevante incompetência das outras escolas. Para ganhar o carnaval carioca é preciso ser estrategista em todos os setores e pulso forte para segurar/manter acordos, contratos e combinados claros obscuros. Como a vaidade impera, ave Laila!

Dentro do sambódromo, enfim, não se vende apenas o refrigerante, o churrasquinho, o salsichão, o queijo coalho e a cerveja ‘a rodo’, vendem-se sonhos, industrializam-se esperanças e comercializam-se notas ‘musicais’. Fora o povão que se aglomera nas arquibancadas de ferro na Presidente Vargas, entre arquibancadas ou mesmo nos setores 1, 6 e 13, o carnaval carioca é para poucos porque seus lucros perpassam o ano todo. É uma grande empresa cuja emoção popular nem está mais no plano de negócios! Sem precisar ser expert no assunto, e segundo (de novo) nosso sábio povo excluído: ganha quem paga mais! E se para isso for necessário humilhar a Mangueira com 9,0 para bateria e 8,9 para alegorias e adereços, sem problemas, não temos memória cultural mesmo. Se para isso for preciso destruir trabalhos de ano inteiro, também sem problemas, porque a palavra superação vai prover tudo. Quem se importa em rebaixar uma Caprichosos? Quem discute a ascensão da Renascer este ano? Quem sugere o desmembramento de uma Portela? A quem interessa tudo isso? Maria Helena? Quitéria? Paulinho da Viola? Arlindo Cruz? Beth Carvalho? Não! É importante a quem já aprendeu a esfriar a avenida com sabotagens financeiras às claras.

Sem pensar, nesses cinco dias de folia, as necessidades de viver num mundo encantado de recreações coletivas, onde o delírio de se aceitar noutra dimensão é sentido como fonte de compensações internas, têm seu ponto alto, no RJ, nos desfiles mais concorridos do planeta, cujo burburinho de opiniões, nos meios de comunicação e botecos da cidade, se concentra no dia da apuração. Mais do que saber o resultado dos desfiles, sabemos sempre quais artimanhas e contratos foram estabelecidos e confirmados. Pena! Pena mesmo! Nesta hora, com a mente e o corpo muito sensíveis às formas de olhar e julgar, nos surpreendemos com a inutilidade das horas que ficamos em frente a TV torcendo por toda aquela beleza. E mesmo assim, nos conformamos rápido, e, dias depois, estamos lá, na avenida ou, de novo, em frente a TV, revendo as escolas campeãs e tentando entender o que interferiu em nosso olhar para que errássemos tanto em nossos julgamentos.

Ave 2012!

Profa. Claudia Nunes

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