sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Gerações e Mídias

Sou professora do Ensino Médio (EJA) a mais de 13 anos. Lido com jovens e adultos diariamente. Logo pude acompanhar algumas mudanças nos comportamentos, principalmente, dos jovens, diante da realidade veloz e tecnológica, e a partir de seus desejos cada vez mais “diferentes”. Logo também pude (tive que?) mudar minhas maneiras de analisar esses mesmos comportamentos e todos os modos com as quais interagiam e contextualizavam suas vontades, mesmo, em detrimento dos conteúdos curriculares exigidos. Eles são surpreendentes, um pouco esquizofrênicos, mas surpreendentes.

Essa percepção se fortifica quando entendo que as mídias agem influenciando, talvez em demasia, e em todo o tempo histórico, seus gostos, posturas e valores. E isso me preocupa. Observo os dias como dias “anabolizados”, ou seja, dias em que as mídias impõem um amadurecimento muito rápido à nossa juventude. Esse amadurecimento, aparentemente, cria “mão-de-obra” e atende ao mercado de trabalho, mas coloca em crise, pelo desentendimento, conceitos sempre muito valorizados, como ética, respeito, compromisso e solidariedade. O que percebo, então, não é um aprofundamento desses conceitos, com a participação efetiva da escola e da família, mas um inchaço, uma fragmentação de seus conteúdos, em favor de todo o tipo de subterfúgio que os completem (complementem?), porque eles, os nossos jovens, estão literalmente sozinhos em busca de si mesmos. Essa “anabolização” está vinculada a todos os tipos de acesso a que esses mesmos jovens se expõem por tempo indeterminado (excessivamente?) e longe da “contrariedade” da observação limitante da família. E a escola, mantendo suas estratégias tradicionais, não dará conta disso nunca!!

Muito incomodada com tudo isso, fui fazer uma pesquisa sobre como se desenvolve a postura do jovem na história brasileira, sobre como acontecem as mudanças em seus comportamentos e sobre como se apresentam seus processos de criatividade diante de experiências existenciais e históricas tão diferentes, diante das mídias. De pronto fui confrontada com o óbvio: cada década trouxe um diferencial às estruturas nas quais cada juventude formou suas atitudes, seus comportamentos e suas projeções nas relações familiares, políticas, mercadológicas e pessoais, por eleger uma mídia como veículo às informações nacionais e mundiais. São (somos) gerações marcadas na história pelo envolvimento específico com determinados tipos de mídia.

Esse texto pretende compartilhar um pouco dessa pesquisa.

Eu não “nasci a dez mil anos atrás”, como canta Raul Seixas, mas a 40 anos, logo a década de 70 é uma vaga lembrança. Por isso, os livros didáticos me foram de grande valia nesse primeiro momento da pesquisa. E, segundo muitos deles, o Rádio dava lugar à TV nos lares brasileiros. É uma nova linguagem. A imagem padronizava as formas de rebeldia e de transgressão, e tornava-se mais que real porque a natureza era reduzida à aparência da aparência. O tele-visual remexia no “baú de ossos” das famílias e impunha novos assuntos e novos debates. Era o início da intimidade tele-visiva. Era o fim da exclusividade. Os jovens tornaram-se, como a imagem, multissensoriais e simuladores. Estavam na “crista da onda” o psicodelismo, o amor livre, a alimentação natural etc. Lema? Paz e Amor, bicho!!! Em paralelo, o regime militar, consumo, industrialização e velocidade. Mesmo assim, criou-se a dimensão do novo (nunca das novidades) abrangendo novas modalidades de informação e comunicação, interesses comunitários, culturas alternativas e mídias “inteligentes”. As gavetas da criatividade estavam plenamente abertas para novos procedimentos estéticos e nova paisagem ética. Outra vez, mesmo assim, é uma geração existencialmente em crise e angustiada, pois a integração de todas essas “novas” idéias é muito difícil. Como escapar de estilos de vida padronizados e cheios de repetições confortáveis?

A década de 80 já mistura pesquisa histórica e minhas vivências e experiências. As mídias eletrônicas retomaram seu poderio. Ao estabelecer debates cada vez mais acirrados e radicais sobre as chamadas novas tendências cotidianas, as mídias passaram a simular o próprio cotidiano. Sinalizaram e redirecionaram as muitas transgressões éticas e estéticas experienciais, logo remodelaram e neutralizaram as “viagens” juvenis.

As mídias eletrônicas criaram interfaces com a realidade em que sonhos, desejos e vontades entraram em processo de modulação. Todas as estratégias de marketing deram certo e o consumo tornou-se símbolo de status. Aqui, nesse período, as imagens estão limpas, assépticas. Há linearidade nas propostas de sentido. E o efêmero é o elemento incentivador das experiências diárias: consumir é preciso!

Se antes as criatividades estavam “à flor da pele”, na década de 80 aceitamos a Indústria Cultural, ou seja, sem obviedade, cedemos lugar a um espírito do tempo marcado pelo crivo do mercadológico. Gostos musicais, vestimentas, modos de comportamento, de visibilidade e de linguagem, todos importados, são as ferramentas aprendidas, absorvidas e reproduzidas por “osmose” pela invocação insistente da internacionalização. O contexto torna-se de violência e criminalidade, visto que a inadequação é cada vez mais vertiginosa. A juventude sente-se estrangeira em seu próprio país. São mentes sem pré nem pro(cedência) e todas as suas alternativas são vistas sob suspeição.

É tempo de novos “Apolos” midiáticos. É preciso ser destaque. Ser destaque é a conquista da felicidade total. E felicidade, nesse período, é resultado de se saber “tirar vantagem” em/de tudo e todos. Cada jovem quer ser único! Há a sensação (percepção?) de certa programação coletiva para a individualização e a vivência narcísica da realidade. O pertencimento acontece pelo estabelecimento de características telemáticas às novas formas de relação: mais clareza, espontaneidade, atitudes mais cruas, fragmentação da sensibilidade e espírito aventureiro.

As novas tribos apresentam novo estilo de família, modalidade de socialização e pertencimento. É a carnavalização do cotidiano ou, aceitando a expressão de Debord, a “espetacularização da sociedade”, de seus símbolos e ícones, semelhante a qualquer “show business”. É a era do slogan: “tudo que é sólido desmancha no ar” e nessa onda vão, por exemplo, sistemas políticos e ideologias. Na aproximação de suas fronteiras, os jovens vêem hibridizados seus objetos de consumo e, por conseguinte, seu diálogo com o contexto. Mesmo ainda vorazes em relação a quererem novas linguagens que os identifiquem (focalizem?), cada vez mais são assolados com novas “próteses” inconscientes e nada inconseqüentes.

A virada dos anos 80 para os anos 90 é triste e vivemos sua conseqüência até hoje: é a disseminação das drogas pesadas. Uma juventude angustiada encontra seu ‘lar doce lar” no uso inconteste dessas drogas. Com ela, chegam a violência exacerbada e a criminalidade sem lei. Não se sabe mais quem é bom ou mal, e seus resultados começam a ser considerados naturais por uma população que não sabe o que fazer. Inicia-se a indiferença em relação ao outro e o lema “antes ele do que eu” é sua reflexão.

O lugar sagrado das instituições (família, religião e escola) inicia seu desabamento. As mídias (principalmente a TV e sua imagem) disfarçam as turbulências que começam a “pipocar” aqui e ali na sociedade. Cresce o susto da população: vive os novos rumos da história, mas vê imagens em que preponderam leituras pacíficas e equilibradas do mundo. Nesse contexto de incompreensão e fingimento, além de perceber que as situações de violência e agressividade vão se avizinhando, há o desmanche da importância de palavras como valor, ética e conceito. O individualismo desponta como culto. Sendo assim, esse é o momento da geração de diferentes tipos de exclusão e segregação. “Lugar ao sol”: espaços sem concorrência. Sensação geral? Fragilização.

Como estão, então, os jovens aqui? São “rebeldes sem causa”. A liberdade é um objetivo a ser conquistado pelo desejo de destruição do outro. A consquista de espaços depende de quem melhor “puxar o tapete do outro”. Nada de “paz e harmonia, bicho”. Se antes se apresentou a Indústria Cultural, agora se acrescentou a vivência da Cultura de Massa. Ou seja, a juventude vive a representação da representação cuja integração ganha às raias de obsessão.

Sociedade de Industrial. Sociedade de Consumo. Sociedade da Informação. Eis a seqüência da dupla simulação. A juventude vive sob a égide de dois imaginários: o primeiro criado em relações de convívio, logo, interno; e o segundo, formado pelas imagens mostradas na televisão, logo, externo. Ambos confluem (convergem?) todo o tempo e não aceitam nenhum tipo de focalização ou tempo de maturação. Nessa corrida, a plasticidade externa (visões de mundo mutantes) está na frente dos atos em detrimento de valores apreendidos pela família. Maturar o conhecimento começa a perder terreno e a expectativa é a do “tudo ao mesmo tempo agora”.

Afetos, sensações e sentimentos estão (precisam estar) ao alcance de qualquer um. Os jovens começam a interagir com TODAS as ferramentas da sociedade que lhes dêem mais intimidade com a coletividade e isso se dá em nome de qualquer coisa. Em muitos casos, sua saúde mental depende do número dessas relações. Nada é profundo. Tudo parece fragmentado. Não se quer montar um quebra-cabeças definitivo, se quer apenas TER e conhecer as peças desse jogo. E pior: não há encaixes possíveis, aparentemente.

Por outra vertente, todas as invenções decifraram o cotidiano atual como pleno de informações (terapêuticas, dietética, medicinais, sexuais, ecológicas etc.) passíveis de engendrarem novas possibilidades de estruturação de toda uma tradicionalidade conceitual e valorativa. E isso é convocado pela força com que os jovens conseguem estabelecer interações cada vez mais surpreendentes com essas mesmas invenções, e isso, dentro de um padrão evolutivo cada vez mais criativo. Esses jovens projetam-se “ao dia seguinte” por superação de si mesmo, diariamente.

A década de 90 é a década da aparência de si mesmo (cultura do corpo). Nessa perspectiva, os mecanismos de defesa freudianos são utilizados à revelia, pois dependem das necessidades. Aproximam ou distanciam ao sabor das exigências da realidade ou da sociedade. Maturidade e responsabilidade estão nos porões de um lugar percebido como muito distante. Transitório e frivolidade são a presença (materialização?) do tempo presente. A juventude ignora a experiência, mas adora o mito.

Ufa! A criação e/ou aperfeiçoamento das mídias (hoje relacionadas no rol das “novas tecnologias”) integrou-se a alguns vazios da dinâmica social, criando um estofo representativo (imagem) às suas determinações. E os jovens “acreditaram” nessas representações e passaram a viver simulações de vida.

Atualmente, nossos jovens são “tachados” de banais e despreparados. Estão “dependentes midiáticos”. Demandam tanto “mentiras sinceras”, quanto “ilusões necessárias”. Há uma sensação de desertificação dos recursos que possam firma-los como cidadãos ou, ao menos, em que possam se apoiar para entender os próprios comportamentos diante da vida, ou mesmo, que possam propiciar outros estímulos para suas próprias novas regras sociais. Tudo parece dissemelhante. O paraíso é artificial. E, como atores sociais, vivem, segundo Walter Benjamim, “a era da reprodutibilidade técnica” e afetiva. Agir na vida é exacerbação, intensidade, catarse (às vezes atabalhoada) e arrebatamento. Hiperatividade não é só um transtorno, é sua forma de acessibilidade e de aparecer no grupo e na sociedade. Há a necessidade de ser apontado. Resultado: um tempo do “agora” ou um tempo de profundas tristezas. Lema fundamental: “era feliz e não sabia”.

Observar nossos jovens com calma é a única possibilidade de entendermos que, diante de sua imersão em padrões excessivos de comportamentos, está a chave para fecharmos a “caixa de Pandora” e, deixarmos ficar, além da esperança, seu outro provável meio de fuga: o suicídio.

Por favor, escutem mais e interfiram menos!


Profa. Claudia Nunes
Especialista em Tecnologia Educacional/IAVM
Mestranda em Educação / UNIRIO

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