segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

ADOLESCÊNCIA: 'cabeças de vento' e irresponsáveis?


O ano letivo vai começar. De novo professores preocupados com seus planejamentos. De novo reuniões pedagógicas com informes burocráticos, de esperança, sobre projetos e mudanças de comportamentos. Estamos no ensino Médio. Nós reconhecemos um nível de dispersão e de dificuldade muito grande. Só que o ano começa, tudo começa e é necessário repensar a arquitetura pedagógica e as dinâmicas da sala de aula valorizando o que o aluno sabe. Reação: ‘mas eles sabem o que? Eles não querem nada!’ – afirma um professor. Choque. O aluno não quer saber de nada e por isso o professor não faz quase nada. Choque. É um choque. E a palavra DIFICULDADE torna-se uma tatuagem.
Ambos têm dificuldades. Há um social, econômico, político que desvaloriza o profissional e a formação; o saber e a juventude. DIFICULDADES. Nós todos temos dificuldades. Todos temos um nível de dispersão enorme. Todos estamos cansados das adversidades ininterruptas. Só que os alunos estão em desenvolvimento e em nossas mãos. Cérebros em expectativa de aprendizagem. Cérebros plásticos acessando constantemente às informações / estímulos inadequados. Cérebros emocionais em fraca rotação negativa.
Nós, professores, precisamos pensar nisso e reconhecer nossa importância diante dos próprios olhos. Nós nos formamos para trabalhar com as dificuldades, principalmente as emocionais. Autocontrole e controle inibitório são fundamentais. Linguagem, atenção e memória também. Então o que fazemos? Começamos. E recomeçamos.
Adolescentes estão mais imaturos; não tem autocontrole adequado; tem problemas emocionais; acessam ambientes disfuncionais; tem difícil motivação acadêmica, são bem distraídos; agem por impulso; são estratégicos e bem inteligentes; são proativos por interesse; amam desafios em grupo; são visionários; e precisam ser trabalhados constantemente. Adolescentes são complexos assim mesmo: tudo ao mesmo tempo agora de 13 aos 19 anos. Mas como estão em desenvolvimento, tem diferentes dificuldades de aprendizagem porque realizam diferentes imersões sociais. Temos indisciplinados, indiferentes, insolentes, agitados, tímidos, difíceis, sociais, malandros, falantes, imaturos, românticos, descrentes, violentos, amistosos, animados, ilustrativos, inteligentes e únicos. E todos precisam de aproximações afetivas, mediadas e desafiantes.
O paradigma escolar precisa ser quebrado. Não dá mais para classificá-los como tendo baixa inteligência, insolência ou preguiça, e seguir adiante sem fazer nada ou estigmatizando. A ansiedade é nossa. As expectativas são deles. E o embate é certo, forte e de todos. Que tal acreditar que eles são possíveis? Que tal reconhecer seus potenciais? Que tal conhecê-los? Sucesso é uma singuralidade construída por cada um de acordo com as ferramentas a que se tem acesso e de como são utilizadas em diferentes situações. Atenção: sucesso é motivação de uma singuralidade! Então onde estão as dificuldades?
“Para começo de conversa, o termo dificuldades de aprendizagem refere-se não a um único distúrbio, mas a uma ampla gama de problemas que podem afetar qualquer área do desempenho acadêmico” (SMITH, p.15, 2007). Alguém já pensou no que provoca nas mentes dos adolescentes conviver em ambientes violentos e barulhentos? O que pode afetar saber que um dos responsáveis está preso ou está na ilegalidade? Conviver com drogas na mesa de casa ou ser responsável por irmãos menores sendo menor? Estes e outros aspectos podem prejudicar o funcionamento cerebral e causar problemas psicológicos sérios. Somos o que lembramos. Somos o que não esquecemos. Somos o que efetivamente esquecemos. Somos o que decidimos lembrar e/ou esquecer. Somos tudo o que nos aconteceu e, em muitos casos, não sabemos o que fazer com isso. Nossa memória tem dificuldade também.
“As dificuldades de aprendizagem podem ser divididas em tipos gerais, mas uma vez que, com freqüência, ocorrem em combinações – e também variam imensamente em gravidade –, pode ser muito difícil perceber o que os estudantes agrupados sob esse rótulo têm em comum” (SMITH, p.15, 2007). Nós, professores, temos que ter elegância e delicadeza ao pensarmos em tocar a mente dos nossos alunos junto às suas áreas de saber. É sutil a possibilidade de transformar dificuldades em potencialidades e muita felicidade.
Prestem atenção! Todos são / somos capazes de aprender; mas será que nós professores somos capazes de tocar, moldar e transformar essas aprendizagens com destreza? Sim! E a tríade da ação docente é calma, tranquilidade e paciência! A velocidade do mundo não pode sobrepor a capacidade de o cérebro transformar estímulos em memória de trabalho. Nós temos que esperar o inesperado: um desempenho fora do comum ou inadequado. Este desempenho fará com que repensemos (nós, professores) todos os itens didáticos para que as formas de aprender sejam realinhadas e a autoestima torne-se uma linha ascendente. “Na maior parte do tempo, [as crianças] funcionam de um modo consistente com o que seria esperado de sua capacidade intelectual e de sua bagagem familiar e educacional, mas dê-lhes certos tipos de tarefas e seus cérebros parecem “congelar”” (SMITH, p.15, 2007).
É difícil! Elas se tornam inconstantes. E se desorganizam. Essa desorganização mental tem como comportamento, por exemplo, a distração. Elas são atraídas por outras informações do ambiente ou da imaginação. Então atenção: “...as deficiências que mais tendem a causar problemas acadêmicos são aquelas que afetam a percepção visual, o processamento da linguagem, as habilidades motoras finas e a capacidade para focalizar a atenção” (SMITH, p.15, 2007). Além disso, existem alguns outros comportamentos problemáticos e que interferem na aprendizagem, como:
ð Fraco alcance da atenção = perda do interesse, salto de uma atividade a outra, trabalhos inacabados, dificuldade para seguir instruções, imaturidade social;
ð Dificuldade com a conversação = inflexibilidade, teimosia, resistência, fraco planejamento e habilidades organizacionais, pequeno entendimento sobre o tempo, dificuldade em se organizar diante de múltiplas tarefas;
ð Distração = esquecimentos constantes, falta de destreza (desajeitada e sem coordenação), caligrafia péssima, inepta em esportes e jogos, falta de controle dos impulsos.

Condições sociais, ambientais e genéticas podem causar condições neurológicas disfuncionais, ou seja, dificuldades de aprendizagem. E isso não pode ser observado como mentira, esperteza, preguiça ou falta de esforço. É preciso compreendê-los de forma empática: colocar-se no lugar deles e no tempo deles e entender seus movimentos de aprender.
Algumas dificuldades de aprendizagem têm dificuldades emocionais relacionadas; daí a percepção de uma crescente frustração. As solicitações devem criar emoções positivas (proatividade). Exigir o que não conseguem ou forçar algo cuja mente não foi trabalhada para tal é criar um campo livre para a desistência de aprender. Eles precisam ser mediados sempre, mas do que ajudados. Senão, “muitos se sentem furiosos e põem para fora, fisicamente, tal sensação; outros se tornam ansiosos e deprimidos. De qualquer modo, essas crianças tendem a isolar-se socialmente e, com freqüência, sofrem de solidão, bem como de baixa autoestima. [Por consequência] adolescentes com dificuldades de aprendizagem não apenas estão mais propensos a abandonar os estudos, mas também apresentam maior risco para abuso de substâncias, atividade criminosa e até mesmo suicídio” (SMITH, p.16, 2007).
A sociedade precisa entender que seus jovens são inteligentes, estão ansiosos por aprender, são inquietos por natureza e que necessitam de carinho, compreensão e um olhar sincero sobre suas mentes, jeitos e possibilidades.

REFERÊNCIA:

SMITH, Corinne e STRICK, Lisa. Dificuldades de Aprendizagem de A a Z: um guia completo para pais e educadores. Porto Alegre: Artmed, 2007.

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