terça-feira, 30 de julho de 2013

SALA DE AULA PÚBLICA: uma avaliação

Escola de ensino público. Ensino Médio regular. Turno noite. Jovens de 17 a melhor idade juntos. Estou no pátio, observo e escuto. Estamos na semana de provas. Mais ebulição do que o normal. Momento tenso. Conversas variadas, mas algo chama atenção: a questão das provas NÃO é o assunto principal. Semana de provas e os encontros, os afetos, as passeatas, as músicas, as meninas ou meninos, o recebimento da blusa da escola, a festa junina, as decepções, as futuras programações, o trabalho, tudo cerca as relações orais e os humores, menos as provas. Muitos até perguntam: hoje é prova de que?
Escuto e me lembro dos tempos de escola. Esta era uma época de grande preocupação. Fora a questão do saber, tinha a tensão de ‘ter nota’ para mostrar aos meus pais. Era uma semana em que atividades lúdicas em casa eram restringidas. Eu e meu irmão estávamos estudando. Era uma semana de muito foco e concentração. Era uma semana em que, em jogo, estavam as férias na casa da minha avó. E ali, naquele pátio da escola, eu observava e ouvia jovens-adultos e adultos quase displicentes quanto às suas aprendizagens ou performances na hora da avaliação. O que aconteceu? Em que momento houve esse desligamento ou desinteresse sobre a participação das etapas avaliativas da escola?
Pelo jeito, a avaliação precisa realmente ser repensada. Estes jovens estão desconectados da escola e não se reconhecem nos processos avaliativos. Fiquei ali lembrando de mim, minha infância e adolescência na escola, e comparo conclusivamente: estamos em tempos muito diferentes mesmo. Paradigmas controversos. Ações lineares. Tradições em crise total. Questões desfocadas. Falta de espelhamento. Isso tudo é o que eles vivem e sentem em permanência na escola e nas propostas de avaliação. É uma sensação reproduzida largamente por tempo demais e o prejuízo estou/estamos percebendo hoje, aqui. Jovens-adultos são ebulições em expectativa de novidades, por que é difícil entender ou agir diante disso? Ou qual é o sentido de tanta resistência docente em SE superar emocional e pedagogicamente? Bate o sinal. Todos em suas salas.
Duas horas de prova. Aliás, duas horas de provas. Em minha escola, em cada dia da semana, em duas horas, os alunos devem fazer duas provas. Hoje acontecerão as provas de Química e de História. Primeiro entrave: não seriam solicitadas habilidades muito diferentes para os mesmos cérebros? Enfim observo. Silêncio: alunos pensando. De acordo com a gestão, ambas as provas com questões discursivas e sem consulta. De novo me surpreendo ‘meio tensa’ com isso. Um bimestre inteiro de Química e História em xeque, durante duas horas. Isso é didático? Isso é pertinente? Tem que ser desta forma?
Em pé, ando para lá e para cá e leio os comportamentos. Silêncios de 30min. Pequenas inquietações durante mais 20min. Olhares perdidos por mais 30min. Por fim, muitas desistências. Sem tanto rigor temporal, depois de 40min, muitos alunos já olhando para mim na ânsia de entregar as duas provas e sair para vida. Eles queriam algo mais interessante e com mais sentido do que aquilo. Lá fora tinham projetos, planos, expectativas, desejos, aguardando-os. Lá fora só tinham que provar coisas a si mesmo e se integrar. Lá fora os significados e ressignificados dependiam somente deles, das suas vivências e dos riscos que assumiam correr. Lá fora a curiosidade, as independências, as liberdades. Lá fora desafios e emoção pura!
Para avaliar realmente é preciso entender como esse aluno, no século XXI, aprende. Em uma hora, bate novamente o sinal e quase todos os alunos entregam as provas e saem. Provas de Química e de História realizadas em menos de uma hora? Pois é, é isso. Eu recebo as provas, mas pergunto: ‘Tudo bem? Acabou mesmo?’. Todas as respostas são positivas. Os cérebros já tinham outros pensamentos, outras vontades, outras intenções. As mentes já se imaginam noutros lugares e com outras pessoas.
Todos são jovens-adultos e adultos; são idealistas; são desejantes; e são dispostos. Muitos não têm consciência do que querem ou do seu valor, mas todos aprendem e querem aprender. Mesmo com muitas nuances acreditam na seguinte ideia: estar na escola é para aprender. Mas há algo ‘sem cola’ neste processo, tem algo que não está ressignificando as relações de aprendizagem. Ao pegar meu material, deixo cair o livro do carnavalesco Paulo Barros chamado ‘Sem Segredo: estratégia, inovação e criatividade’ e aquelas palavras me surpreendem. É isso! Na escola atual faltam formações e renovações estratégicas voltadas às inovações (desafios) e às criatividades (estímulos às inteligências).
Eu fico naquela sala parada pensando. Como minha avó diria ‘estamos com a faca, o queijo e o rato em mãos’, mas não surpreendemos. Nós, professores, reproduzimos, linearizamos e acreditamos em aprendizagens iguais ainda. Nós, docentes, entramos numa bifurcação histórica e observamos de longe às transformações cognitivas e, principalmente, suas razões. Só a Pedagogia não basta mais para estimular e desenvolver os chamados ‘nativos digitais’ ou ‘geração Y’. Nós, professores, precisamos da Pedagogia, da Psicologia, da Filosofia, das Tecnologias, da Neurociência, das humanizações constantes (sensibilidades) para qualificar as vontades de aprender dos sujeitos de maneira integral. E as décadas de fragmentações, principalmente, curriculares não favorecem o (re)pensamento dos seus processos: estão obsoletos, estão fragilizados.
Inovar, empreender, colaborar, desafiar, mediar são palavras que precisam da prática pedagógica. É preciso tirá-las do âmbito dos textos teóricos e relacioná-las ao cotidiano escolar com seriedade, tanto importando conteúdos, quanto valores para uma inserção social menos turbulenta dos nossos alunos. Os conteúdos tem que ser valorizados por contextualização, importação dos interesses também dos alunos e momentos de liberdade de ação e parceria. Com os conteúdos sabidos, professores podem ligá-los à nossa cultura, economia, meio ambiente, mídia etc. O lugar em que vivem, seja a comunidade ou a sociedade em geral tem que se fazer presente no processo de aprender. Isso provoca disciplina em sala, consciência dos fatos, melhores argumentações, desejo de aprender e menor número de ausências.
Aprendentes necessitam de ensinantes mais inovadores; ensinantes que, com seu autoconhecimento, desenvolvam uma sala de aula mais movimentada, pensada, corporal e democrática. Aprendentes necessitam de ensinantes em constante processo de formação em sua área de saber e em outros conteúdos. Aprendentes necessitam de ensinantes que os respeitem em suas singularidades cognitivas e emocionais, e os mantenham aprendendo. É uma visão romântica ou ampla demais do educar? Pois é, eu sei. Então por que não?
Naquela sala do segundo andar de um prédio mal conservado, pensei numa nova educação com mais impacto às cognições e às emoções tão diferentes. E tudo começaria com uma avaliação diagnóstica de excelência. Desejar mudanças é desejar novos engajamentos, de repente, por imersão e colaboração de todos com todos em busca de memória e conhecimento.
Eu sei que demora, mas o tempo deve ser usado a nosso favor sempre. Nós, professores, temos formação e convivemos, muitas vezes, com realidades comunitárias muito díspares. É preciso (re)arranjar o tempo das ‘ensinagens’ de acordo com o tempo e o ritmo das aprendizagens com pequenas sensibilidades voltadas ao incentivo às experiências e às vivências dos aprendentes. Algumas sugestões interessantes indicadas por diferentes textos do site Nova Escola:
- planeje suas aulas com mídias diferentes;
- oportunize o diálogo sobre as aulas, vez por outra;
- diminua as improvisações;
- determine novos ambientes para aprendizagem;
- indique novas fontes de pesquisa;
- estabeleça pequenos vínculos afetivos;
- use o conhecimento teórico como base às atividades oferecidas;
- tenha percepção realista dos alunos e suas potencialidades acadêmicas;
- incentive o desenvolvimento de respostas possíveis e não apenas as certas;
- influencie o crescimento dos níveis de curiosidade com atividades desafiantes e em grupo;
- estimule os alunos a explorarem a própria realidade;
- evite inventar situações descontextualizadas;
- transforme os alunos em agentes ativos e proativos;
- envolva a todos em aprendizagens de mente e corpo;
- inspire os alunos a tocar, cheirar e mergulhar em determinados assuntos, indo além do livro ou foto;
- priorize, quando puder, o trabalho em grupo ou em conjunto;
- apresente-se como mediador e favorecedor do saber introduzindo recursos e técnicas variadas;
- dê liberdade ao uso de ferramentas e técnicas trazidas pela experiência discente;

- oportunize o espaço da sala para os deslizes sem medo ou rigidez autoritária.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sob uma nova CULTURA

Edith Ackermann, psicóloga, discípula de Jean Piaget e pesquisadora da relação entre educação e novas tecnologias do MIT, diz que as crianças ganharam um novo suporte mediador da aprendizagem. E que isso não é ruim.

Maria Celeste Oliveira
 

Mesmo num mundo onde a informação é abundante e os meios de comunicação convencionais são potencializados por meios digitais, a aprendizagem está necessariamente ligada ao envolvimento com um objeto ou uma situação na qual o aprendiz esteja imerso. Computadores, laptops e tablets podem ser enriquecedores para a aprendizagem, mas sem a mediação de educadores, o processo corre o risco de se perder e de se fragmentar. Afinal, o conteúdo puro não significa muito, pois conteúdo e processo estão imbricados.
Essas são algumas das idéias da psicóloga Edith Ackermann, professora de psicologia do desenvolvimento na Universidade de Aix-Marseille 1, na França. Edith, que durante 20 anos trabalhou no Instituto Piaget - dos quais sete sob o comando do próprio Jean Piaget -, trabalha atualmente como pesquisadora visitante na Escola de Arquitetura do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Sua trajetória é marcada por pesquisas e estudos que envolvem a construção de conhecimento, muitos dos quais com crianças, e sobre o impacto da programação de computadores sobre a aprendizagem.
Leia, a seguir, a entrevista que Edith Ackermann concedeu à Educação, durante sua visita ao Brasil no início de maio para participar como palestrante do evento comemorativo dos 30 anos do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (Nied), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Qual o impacto das tecnologias no ensino e aprendizagem? Por mais que as novas tecnologias integrem nossas vidas cada vez mais, são necessários diferentes momentos para que ocorra a construção do conhecimento e para que a criança continue a aprender. Um deles tem a ver com estabelecer uma relação, uma conexão, com algo que faça sentido.
Há outro momento relacionado com o envolvimento; tem a ver com uma imersão, construção. Um terceiro momento, muito importante, é o que eu chamo de contemplação, ao invés de reflexão. Utilizo essa terminologia porque não gosto da maneira como os educadores tendem a criar rituais em torno da aprendizagem: "Vamos tentar..." ou "Vamos refletir sobre...".  Prefiro pensar em termos de um momento em que a pessoa está com a mente totalmente engajada, e em outro momento em que ela se coloca fora da situação e a contempla.
Um quarto momento é o que chamo de reinterpretação. É como o teatro e está relacionado com dar uma resposta. É uma reinterpretação de tudo o que intriga, que mobiliza uma pessoa. Há um quinto momento que tem a ver com colaborar com outras pessoas, que é tão intenso quanto os demais. Cada um desses momentos requer algum tipo de mediação, porque não existem experiências diretas, não mediadas. Mesmo aquelas experiências que parecem ser de primeira mão, são, de alguma forma, mediadas por aquilo que já sabemos, já vivemos.  Então, a tecnologia não é, necessariamente, imprescindível para o aprendizado.

Suas pesquisas enfatizam a programação de computadores por crianças. Como isso é possível? A programação é a arte e a ciên­cia de criar condições para que as coisas interajam entre si e com o mundo, por conta própria. Ela possibilita que as crianças desenvolvam maneiras próprias de dar comandos e assumir o controle de determinadas situações, na medida em que elas desenvolvem, por exemplo, meios para que as coisas façam coisas (instruindo-as a seguir ordens). Quando programam, as crianças também podem animar objetos ou fazer com que eles interajam com um ambiente, seguindo determinados parâmetros.Nesse processo, elas podem seguir rumos inesperados e imprevistos pelos adultos. Mas as tecnologias são um suporte, possibilitam a mediação para processos bastante enriquecedores. A mediação também pode ser um suporte físico, um lugar, podem ser pessoas.
É nesse ponto que entra a última etapa da aprendizagem, um momento que transforma o processo em um ciclo, num continuum. E esta é parte complicada, porque a coisa mais difícil, tanto numa sala de aula, quanto em ambientes informais de aprendizagem, é superar o primeiro obstáculo, a primeira decepção - aquela que surge depois da inspiração, da confiança de que consigo fazer as coisas. Quando o primeiro obstáculo real surge, é o que de fato ajuda as pessoas a irem além. Esta é a coisa mais difícil em educação.
E é neste ponto que a orientação é necessária, pois como reagir depois da primeira decepção? Nesse momento, a orientação é muito importante para que as pessoas não se percam, para que elas mantenham o foco, o horizonte da tarefa que estão realizando.

Não basta entregar um laptop ou um tablet para cada criança? Não, não funciona assim. Durante muitos anos trabalhei no projeto Um Computador por Aluno [concebido por Nicholas Negroponte, também do MIT] e ainda acho interessante a ideia de distribuir laptops, desde que não se presuma que as crianças vão aprender sozinhas, sem um professor. Esta é uma ideia equivocada. Mas o professor tem de partir daquilo que a criança sabe, caso contrário não há aprendizagem.
Quando trabalhava com Piaget, aprendi que informação não é conhecimento, que inteligência não processa informação e que a mente humana não funciona como um computador, codificando informação e a arquivando na memória, como se fosse uma biblioteca que podemos acessar quando necessitamos. A mente humana funciona de um modo muito mais orgânico, pois existe um paralelismo entre os processos psíquicos e físicos. Piaget diz que o conhecimento é experiência, mas é a experiência na qual uma pessoa está imersa, após ter vivenciado várias instâncias dessa experiência, como variações sobre o mesmo tema.

Como fica a escola nesse cenário? Nenhuma instituição ou organização pode se responsabilizar, de maneira isolada, pela educação de uma criança no mundo atual. É difícil dizer o que as escolas devem ser, mas certamente não se trata de infraestrutura luxuosa ou apenas de tecnologia avançada. Uma escola pode funcionar até sem eletricidade. O que importa é a existência de um lugar de encontro. A aula pode acontecer até debaixo de uma árvore.

Existe hoje uma valorização muito grande do conteúdo. Como relacionar isso com a construção da aprendizagem? Eu faço parte de um grupo de estudiosos que não gosta de separar o conteúdo do processo. Ao mesmo tempo vivemos num contexto em que as maiores universidades do mundo estão distribuindo o conhecimento que produzem na forma de conteúdo. Mas o acesso ao conteúdo, mesmo às aulas dos maiores professores, não assegura nada. Esse conteúdo só tem alguma utilidade para aqueles que têm algum grau de organização própria, que souberem como utilizá-lo.
O que está em questão é aquilo que Seymour Papert [matemático do MIT, criador da linguagem Logo nos anos 1970 e um dos maiores teóricos sobre o uso do computador na educação] diz: pensar é estar pensando sobre alguma coisa relevante. Essa coisa relevante é, de fato, o fenômeno que o indivíduo está questionando ou sobre o qual está aprendendo.

Então o interesse de um menino em videogames não é necessariamente ruim? Não, de fato, não é. Os jogos têm a particularidade de criar um ambiente seguro no qual a criança sabe que pode errar. Acredito que as crianças gostam de videogames porque sabem que são uma encenação. Enquanto jogam, elas sabem que podem voltar, repetir o processo até obterem sucesso.

Nesse sentido, está havendo um debate sobre as habilidades que as pessoas devem ter no século 21. Sim, com a perspectiva dos adultos de definirem o que as crianças devem saber para serem bem-sucedidas no mundo contemporâneo. Nos Estados Unidos, existe todo um enquadramento no sentido de combinar conteúdos com determinadas habilidades, expertises e alfabetizações para  produzir determinados resultados.
Enquanto isso, estão sendo forjadas novas culturas de participação por meio de tecnologias, que dão origem a novos tipos de expertises técnicas, em áreas como o vídeo digital, animação, design de moda. Vivemos numa nova ecologia midiática, um ambiente híbrido no qual vivemos e aprendemos, em que transitamos de livros para o Facebook. São várias formas de engajamento, as formas como as crianças (e as pessoas responsáveis por sua educação) navegam, habitam, renovam esses ambientes. As pessoas não vivem em um único canal: virtual ou físico. A tecnologia não está competindo com as outras dimensões; elas coexistem.

Há riscos nesse processo? Podemos aprender muito quando observamos como as crianças se relacionam com as tecnologias. Há estudos que mostram que as novas gerações estão desenvolvendo uma relação diferente com o mundo e com a aprendizagem. Um exemplo é a cultura de compartilhamento. Muitas vezes, os "nativos digitais" disseminam suas ideias e criações antes de elas estarem totalmente formatadas, difundindo uma cultura de colaboração, de trabalho em equipe.
Mas há dimensões às quais é preciso ficar atento. A escrita passou a ser entendida como uma justaposição de fragmentos recortados e colados ou como uma combinação de texto, imagem e som. A leitura se tornou a marcação de um texto ou extrair um trecho para ler mais tarde. A edição passou a ser vista como um meio de criação. Isso impõe um desafio enorme aos educadores, que têm de lidar com uma situação que eles consideram plágio.



AULA TRADICIONAL perde espaço para alunos cada vez mais conectados

Com aulas longe da escola, método "invertido" mostra mudanças no ensino graças às tecnologias digitais que estão transformando a educação

A professora April Burton explica as regras da gramática francesa ou detalha expressões e aspectos do vocabulário do idioma como faria normalmente em uma sala de aula, só que em um vídeo de cinco minutos que seus alunos assistem em casa, na frente de seus computadores ou através de seus smartphones.
No dia seguinte, eles farão os exercícios práticos na presença dela, de acordo com chamado método "invertido", uma forma diferente de ensino, possível graças às novas tecnologias digitais que estão transformando a educação.
Burton, professora do Liceu Francês Francis Howell, em Cottleville, no estado americano do Missouri, decidiu lançar mão dessa estratégia pedagógica porque sentiu que "as coisas precisavam mudar". "Havia tanto o que fazer com os estudantes, mas nunca tínhamos tempo", conta.
Essa estratégia de ensino é popular nos Estados Unidos desde a postagem na internet dos vídeos da Academia Khan, que oferece gratuitamente milhares de cursos e exercícios online.
Para levar esta metodologia adiante, a professora precisou modificar um software e criar uma página na internet e um novo tipo de apresentações de PowerPoint. "Madame Burton", como a professora passou a ser chamada no seu site, tem 14 anos de experiência e explica as regras da gramática ou detalha expressões e aspectos do vocabulário em um vídeo de cinco minutos que seus alunos assistem de casa.
"A aula tradicional deixou a sala de aula e os estudantes agora aproveitam o tempo em sala para fazer exercícios, pesquisas pessoais, trabalhos em grupo e apresentações", disse.
No vídeo em que explica a conjugação do verbo "pouvoir" se pode ouvir sua voz, vê-la escrevendo no quadro e sublinhando as palavras. Para ensinar os adjetivos demonstrativos, a professora adiciona desenhos e fotos. "Na verdade, o que digo com um PowerPoint, antes seria explicado em aula", explicou.
O estudante abre de casa o vídeo no computador, no tablet ou no celular e pode fazer as lições no seu ritmo, além de fazer anotações. Caso não entenda alguma coisa, pode perguntar no dia seguinte na sala de aula.
"Entro na sala, falo individualmente com cada estudante e vejo se há alguma pergunta. Passo a conhecê-los melhor, já que estou falando de igual para igual", disse Burton.
"Em tese, há muito tempo se pode dizer aos estudantes: 'Peguem o livro em casa, leiam este capítulo e venham fazer as tarefas na escola', mas, se isso funcionasse, já seria feito há muito tempo. Porém, o vídeo é uma maneira muito mais fácil", explica à AFP Pascal-Emmanuel Gobry, fundador da Noosphere, uma empresa de pesquisa voltada para a relação da educação com as novas tecnologias.
Os tablets, smartphones e reprodutores de música, cada vez mais sofisticados, podem armazenar milhares de aplicativos, softwares, conteúdo e imagens que podem ser fartamente usados na educação, para ampliar ou completar um curso online.
"As novas tecnologias mudaram o ensino, assim como a revolução industrial transformou a sociedade agrária", explica Mike Kaspar, representante da Associação Nacional de Educação (NEA), o maior sindicato de professores dos Estados Unidos.
Para Gaspar, essas tecnologias mudaram "a forma de passar o dia na escola, de pensar a conveniência ou não de utilizar livros impressos ou digitais, vídeos, jogos, etc.", acrescentou.
TeachThought, uma plataforma online para educadores, prevê que, até 2028, ocorrerá uma perda de docentes e escolas, com focos de resistência e "aumento das desigualdades socioeconômicas", sobretudo pelo custo da tecnologia.
Burton destaca que as crianças de hoje são diferentes das gerações anteriores, que se sentavam em suas carteiras e recebiam as informações que os professores os davam. "Elas estão o tempo todo jogando, enviando mensagens de texto para os amigos, vendo vídeos no Youtube. Não se pode esperar que se sentem em uma sala de aula e escutem", opina.
Mackenzie Klotzbach, de 15 anos, gosta das aulas "invertidas". "Chego pronta para a aula, aprendo melhor", disse. "O futuro, o passado, o imperfeito... fácil. Mas os pronomes dos complementos de objeto são um pouco difíceis!"


PROFESSOR 2.0, a profissão do futuro

Convergência Digital - Carreira 
:: Por Suzana Liskaukas - 16/05/2013

O professor nunca foi tão necessário quanto no contexto atual da era digital. A frase é da cientista e educadora Martha Gabriel, autora de diversos livros sobre educação na era cibernética. Em sua palestra “Livro Didático Digital”, na BITS 2013, que acontece  em Porto Alegre, a pesquisadora afirmou que a tecnologia, ao contrário do que muitos pensam, não embota o cérebro, mas pode ser uma grande aliada do docente, desde que ele queira se tornar amigo e usuário dela.
A internet traz o modelo Socrático, a Paideia, para as salas de aula. O professor 2.0 não é um mero repassador de conteúdo, ele conecta esses conteúdos. "É um catalisador de ideias. Ele é capaz de direcionar o aluno para a busca inteligente do conteúdo na rede", disse Martha.
A pesquisadora alertou que estamos vivendo uma mudança muito impactante entre a Era da Informação (Revolução Industrial) e a Era da Inovação (Revolução Digital). Segundo a pesquisadora, o que foi aprendido na escola anos atrás não cabe mais hoje, em termos de conhecimento inteligente.
"As grandes habilidades dos jovens até 2020 serão o pensamento crítico, a criatividade e a conexão", destacou. Na visão de Martha, as escolas precisam descartar o modelo do incentivo ao acerto.  “Para estimular a criatividade em um aluno, é preciso incentivá-lo a tentar e errar. Se um aluno não está preparado para errar, ele provavelmente terá mais dificuldade em adotar posturas criativas”, completa.
Na era digital, os modelos de educação formal perdem cada vez mais espaço para a educação informal. “As pessoas não se contentam mais com um certificado, elas querem saber como faz, como resolver os problemas que elas enfrentam no dia a dia de suas organizações e corporações. Por isso, surgem cada vez mais caminhos como as universidades corporativas, por exemplo”,  acrescentou Martha.  “Estamos cada vez mais  cerebralmente conectados às camadas de tecnologia, o que acelera o ritmo da inovação”.
Segundo a pesquisadora, em um ambiente cada vez mais baseado no BYOD (Bring your own device) e em que 73% dos representantes da Geração Y afirmam não conseguir mais estudar sem recursos de tecnologia, o Professor 2.0 está cada vez mais parecido com um canivete suíço, repleto de funcionalidades.  “Mais do que a era BYOD, estamos na era BYOC (Bring your own cloud).  O professor precisa testar as redes sociais. saber como usá-las para estimular o aprendizado e, asism, aumentar a capacidade do aluno de apreensão de conteúdo”, comentou.
Martha finalizou a apresentação mostrando que, apesar de vivermos em uma época muito rica em termos de compartilhamento de informações e conhecimento, ela traz muitos desafios para o professor e o ambiente educacional. “O educador precisa saber como lidar com o excesso de exposição, dele e dos alunos. É preciso lembrar que as pessoas esquecem, mas a Internet, não. As questões éticas e o bulling devem ser analisados com cuidado".
Outro grande desafio, segundo a pesquisadora, é o plágio na rede. “Se você mostrar a uma criança o que é plágio e dizer  que, quando você cita, não é há demérito, muito pelo contrário, você vai estimulá-la a pensar de outra forma. Muitas vezes o plágio acontece, porque quem o pratica não tem consciência”
A pesquisadora alertou que também é preciso saber lidar com o excesso de informação e a fadiga cerebral. “Temos registros de que quem usa tecnologia pode mudar 37 vezes mais de telas durante o dia do que os que não usam tantas redes sociais, por exemplo. Isso dispersa o aprendizado" afimrou Martha, que aposta no professor 2.0 com uma das profissões mais importantes do futuro.


quinta-feira, 30 de maio de 2013

NOTA MAIS ALTA não é educação melhor!!

'Nota mais alta não é educação melhor'
Diane Ravitch, ex-secretária-adjunta de Educação dos EUA

Erro. Ênfase em responsabilização de professor é danosa para a educação, afirma Diane

Uma das principais defensoras da reforma educacional americana - baseada em metas, testes padronizados, responsabilização do professor pelo desempenho do aluno e fechamento de escolas mal avaliadas - mudou de ideia. Após 20 anos defendendo um modelo que serviu de inspiração para outros países, entre eles o Brasil, Diane Ravitch diz que, em vez de melhorar a educação, o sistema em vigor nos Estados Unidos está formando apenas alunos treinados para fazer uma avaliação.
Secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação na administração de George Bush, Diane foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para assumir o National Assessment Governing Board, instituto responsável pelos testes federais. Ajudou a implementar os programas No Child Left Behind e Accountability, que tinham como proposta usar práticas corporativas, baseadas em medição e mérito, para melhorar a educação.
Sua revisão de conceitos foi apresentada no livro The Death and Life of the Great American School System (a morte e a vida do grande sistema escolar americano), lançado no mês passado nos EUA. O livro, sem previsão de edição no Brasil, tem provocado intensos debates entre especialistas e gestores americanos. Leia entrevista concedida por Diane ao Estado.

Por que a senhora mudou de ideia sobre a reforma educacional americana?
Eu apoiei as avaliações, o sistema de accountability (responsabilização de professores e gestores pelo desempenho dos estudantes) e o programa de escolha por muitos anos, mas as evidências acumuladas nesse período sobre os efeitos de todas essas políticas me fizeram repensar. Não podia mais continuar apoiando essas abordagens. O ensino não melhorou e identificamos apenas muitas fraudes no processo.

Em sua opinião, o que deu errado com os programas No Child Left Behind e Accountability?
O No Child Left Behind não funcionou por muitos motivos. Primeiro, porque ele estabeleceu um objetivo utópico de ter 100% dos estudantes com proficiência até 2014. Qualquer professor poderia dizer que isso não aconteceria - e não aconteceu. Segundo, os Estados acabaram diminuindo suas exigências e rebaixando seus padrões para tentar atingir esse objetivo utópico. O terceiro ponto é que escolas estão sendo fechadas porque não atingiram a meta. Então, a legislação estava errada, porque apostou numa estratégia de avaliações e responsabilização, que levou a alguns tipos de trapaças, manobras para driblar o sistema e outros tipos de esforços duvidosos para alcançar um objetivo que jamais seria atingido. Isso também levou a uma redução do currículo, associado a recompensas e punições em avaliações de habilidades básicas em leitura e matemática. No fim, essa mistura resultou numa lei ruim, porque pune escolas, diretores e professores que não atingem as pontuações mínimas.

Qual é o papel das avaliações na educação? Em que elas contribuem? Quais são as limitações?
Avaliações padronizadas dão uma fotografia instantânea do desempenho. Elas são úteis como informação, mas não devem ser usadas para recompensas e punições, porque, quando as metas são altas, educadores vão encontrar um jeito de aumentar artificialmente as pontuações. Muitos vão passar horas preparando seus alunos para responderem a esses testes, e os alunos não vão aprender os conteúdos exigidos nas disciplinas, eles vão apenas aprender a fazer essas avaliações. Testes devem ser usados com sabedoria, apenas para dar um retrato da educação, para dar uma informação. Qualquer medição fica corrompida quando se envolve outras coisas num teste.

Na sua avaliação, professores também devem ser avaliados?
Professores devem ser testados quando ingressam na carreira, para o gestor saber se ele tem as habilidades e os conhecimentos necessários para ensinar o que deverá ensinar. Eles também devem ser periodicamente avaliados por seus supervisores para garantir que estão fazendo seu trabalho.

E o que ajudaria a melhorar a qualidade dos professores?
Isso depende do tipo de professor. Escolas precisam de administradores experientes, que sejam professores também, mais qualificados. Esses profissionais devem ajudar professores com mais dificuldades.

Com base nos resultados da política educacional americana, o que realmente ajuda a melhorar a educação?
As melhores escolas têm alunos que nasceram em famílias que apoiam e estimulam a educação. Isso já ajuda muito a escola e o estudante. Toda escola precisa de um currículo muito sólido, bastante definido, em todas as disciplinas ensinadas, leitura, matemática, ciências, história, artes. Sem essa ênfase em um currículo básico e bem estruturado, todo o resto vai se resumir a desenvolver habilidades para realizar testes. Qualquer ênfase exagerada em processos de responsabilização é danosa para a educação. Isso leva apenas a um esforço grande em ensinar a responder testes, a diminuir as exigências e outras maneiras de melhorar a nota dos estudantes sem, necessariamente, melhorar a educação.

O que se pode aprender da reforma educacional americana?
A reforma americana continua na direção errada. A administração do presidente Obama continua aceitando a abordagem punitiva que começamos no governo Bush. Privatizações de escolas afetam negativamente o sistema público de ensino, com poucos avanços de maneira geral. E a responsabilização dos professores está sendo usada de maneira a destruí-los.
Quais são os conceitos que devem ser mantidos e quais devem ser revistos?
A lição mais importante que podemos tirar do que foi feito nos Estados Unidos é que o foco deve ser sempre em melhorar a educação e não simplesmente aumentar as pontuações nas provas de avaliação. Ficou claro para nós que elas não são necessariamente a mesma coisa. Precisamos de jovens que estudaram história, ciência, geografia, matemática, leitura, mas o que estamos formando é uma geração que aprendeu a responder testes de múltipla escolha. Para ter uma boa educação, precisamos saber o que é uma boa educação. E é muito mais que saber fazer uma prova. Precisamos nos preocupar com as necessidades dos estudantes, para que eles aproveitem a educação.

QUEM É
É pesquisadora de educação da Universidade de Nova York. Autora de vários livros sobre sistemas educacionais, foi secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação entre 1991 e 1993, durante o governo de George Bush. Foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para o National Assessment Governing Board, órgão responsável pela aplicação dos testes educacionais americanos.



segunda-feira, 20 de maio de 2013

MEDIAÇÃO ou INTERAÇÃO?


Virou moda chamar todos os professores de “mediadores”, mas uma grande parte não é. Mediar não é o mesmo que interagir, não é o mesmo que ensinar. Mediação é muito mais do que isso. De acordo com Reuven Feuerstein, um dos maiores educadores do mundo, a mediação precisa ter algumas características muito especiais. Sem elas, não é mediação, é apenas uma “interação”.

Vejamos as três principais:
1 – Intencionalidade e reciprocidade
O mediador precisa querer ensinar o conteúdo com tal paixão e decisão que fará tudo o que estiver ao seu alcance para explicar da melhor forma possível. Adaptará a linguagem para que a criança com deficiência realmente compreenda. Usará as tecnologias disponíveis na escola para que o conceito se torne claro. Isso tudo chamaremos de intencionalidade, que é a soma do objetivo com as todas as ações possíveis para que o ensino seja realmente de qualidade. Além da intencionalidade do professor, o aluno precisa desejar aprender. Isso se chama reciprocidade. E o mediador usa estratégias adequadas para encantar o aluno desde o princípio, para chamar sua atenção, para conquistar sua vontade de aprender.
2 – Transcendência
Não basta aprender para fazer uma prova. É preciso que se aprenda de tal forma que seja possível aplicar o conceito construído em qualquer outra situação ou contexto. A compreensão do conceito é tal que a criança passa a aplicar o aprendido em sua própria vida e consegue explicar qualquer nova situação em que o conceito esteja presente.
3 – Mediação do significado
Um conceito realmente compreendido se interliga a outros conceitos já construídos pela criança. O mediador precisa ajudar a criança a fazer isso, principalmente uma criança com dificuldades de aprendizagem. Mediar o significado é mostrar aos alunos onde se aplica o conteúdo recém-aprendido, de que forma esse conteúdo aumenta a compreensão sobre outros fatos e como o conceito pode ampliar a compreensão de mundo da criança. Tudo isso é mediar o significado de um conceito. 

Segundo Feuerstein, um mediador sempre considera em suas atitudes essas três características anteriores; no entanto, para que um mediador seja ainda melhor é necessário que inclua outras nove características em sua interação com seus alunos, incluindo as crianças com deficiências. Se as três características estiverem presentes num professor, ele já pode ser considerado um mediador; no entanto, se tal professor apresentar em suas atitudes as outras nove, ele será um mediador ainda melhor.
Os professores precisam receber formação continuada para que possam desenvolver melhor sua metodologia. Sabemos que muitos professores já agem de acordo com as características de mediação aqui defendidas, mas para que possam ser ainda mais eficazes é importante que suas ações sejam conscientes e planejadas, e não apenas fruto do acaso ou de experiências – ainda que bem-sucedidas. Precisamos nos profissionalizar cada vez mais. Precisamos agir com nossos alunos sabendo o que queremos e onde pretendemos levá-los com nossa ajuda, e em especial para com os alunos com deficiências. Sem esses pré-requisitos iremos interagir com eles, mas não saberemos se as vitórias ou fracassos dependeram mais de nós ou das próprias crianças.
Inspirado na obra Mediação da aprendizagem na educação especial, de Gislaine Coimbra Budel e Marcos Meier (Editora IBPEX, 2012).

Artigo escrito por Marcos Meier e Gislaine Coimbra Budel e publicado na edição de dezembro de 2012 da revista Profissão Mestre.

Bjos Claudia Nunes

Nada nunca é igual

  Nada nunca é igual   Enquanto os dias passam, eu reflito: nada nunca é igual. Não existe repetição. Não precisa haver morte ou decepçã...