sábado, 28 de janeiro de 2023

SANCHA e seu delírio


De uns tempos para cá, eu entrei num delírio que não rola saber sair – afirma Sancha ao seu gato. Delírio! Eis a palavra da hora. Depois de mais um dia de trabalho, ela acredita que vai morrer. Ela sente que é o fim. É irreal, surreal, mas as emoções não lhe deixam se separar dessa certeza. Ela vai morrer. Que loucura! Embora seja uma certeza natural, há um incomodo. Ela quer ser super, quer viver outras verdades, quer sair de todos os casulos, mas há o delírio: morrer, apagar, sumir. Eis a sua inimiga: a verdade. Como será? Perseguida, envenenada, assassinada, louca, acidentada? Como será? Sua imaginação não aceita meios termos. Ela voa nos ventos da irrealidade com prazer. Não é fácil rejeitar delírios cujo fundamento é o fim da dor. Não é simples ignorar a presença de outra realidade recheada de possibilidades de paz. Nessa realidade delirante, o mundo cheio de mudanças, cores intensas, ações libertadoras e solidão. Ops, solidão? Como assim? Sancha estranha e gato a ignora. Delírio e solidão? Não é assim que se morre. Ela não está paranoica: ela sabe quem são seus inimigos. Ela não se sente soberba: suas habilidades e profissionalismo estão num padrão de sucesso interessante. Ela não quer ser o centro de tudo: o mundo só gira se ela abrir espaço para outros serem o que forem, apesar da sua falta de paciência. Ela já foi mais ciumenta: hoje ela “finge demência” em vários sentidos para compor uma persona melhor. Seu delírio se concentra no fim de tudo, mas não encontra elo com o porquê ou com o como isso se dará. Sancha tem emoções, mas não tem ponto de contato que a faça agir. Sancha não se sente influenciada. Sancha é delírio e solidão. Sancha é uma humana em ascensão delirante, e isso não a fragmenta; isso a incomoda; e isso não é sua essência. Num mundo tomado de ansiedade e morte, morte é a coisa mais óbvia em “gente normal”. “Ufa, eu sou normal!” – grita. Enquanto acerta seus dias de vida, seu delírio é entender as mortes como fato da Natureza sem precisar pensar em visitas aos cemitérios. Mortes são as ausências, as ofensas, as negações, as repressões, os erros, os desmandos, os desânimos, os desencantos, os desinteresses, tudo aquilo que nos faz ignorar a perda do tempo sem quaisquer atitudes de vida. Sancha, sacode os ombros, ao estilo “tanto faz”, e segue delirante em sua solidão barulhenta e cheia de paradoxos prazerosos.

 

Prof.ª Ms. Claudia Nunes (06/11/2021)

As Moiras, a Srª Certeza Ruim e a Mente: inimigas da perfeição


E de novo a Sra Certeza Ruim ganha proximidade em minha vida. Como tenho dito inúmeras vezes “não aguento mais perder pessoas” ou “não entendo porque só posso ficar com a saudade”. Dizem que esta senhora é um processo natural, universal e inevitável, ainda assim nós, os bobos humanos, não estamos preparados para enfrenta-la. Tudo bem. Em tese e com muita filosofia quântica, é o que devemos aceitar. Só que também sabemos que a mente humana não suporta uma avalanche quase ininterrupta de desaparecimentos, em cuja realidade estabelece-se o vazio interno e externo, sem se perder em brumas disformes ou comportamentos melancólicos. Não há tempo para recomposições, respirações menos ofegantes ou a bendita falácia da resiliência; há só o susto e a dor dos dias seguintes sem um alguém. É o tempo para sentir e viver emoções turbulentas e desconhecidas sem piedades ou pieguices. De novo, e mais uma vez, estou vivendo o assalto da vida feito por esta senhora, dona de um bordel louco e nada privado. Perceberam? Estou rebelde e revoltada. Minha palavra de ordem hoje em dia é ESFORÇO. Esforço para viver.

Hoje, nova noite de silencio interior porque nada na minha área da linguagem cerebral forma sentido quanto ao que passo ou ao que precisarei passar amanhã, junto a uma amiga que dirá adeus ao irmão querido. O que é isso? Uma seleção nada natural. Tempo em que nos encapamos com dor e tristeza porque afinal “a vida é assim mesmo”. E a mente, junto com a triste senhora, sorri de nossa dependência e insegurança. Ambas se alegram com nossas infantilidades e ignorâncias. Ambas ignoram o sentido da palavra sofrimento ou luto. Como parceiras das Moiras, elas se juntam para cortar o fio da vida ao seu bel prazer. Que sinistro!

De novo, fico pensando em pessoas e em suas mentes. A morte do outro é dura. A morte de um outro muito especial é a loucura do meu tempo. É o momento da morte de tempos, das memórias, dos imaginários, das representações, das alegrias. É a morte de uma grande história de crescimento e de aprendizado. Nós seguimos perdendo blocos de vida ao longo do tempo ou blocos de tempo ao longo da vida? Não sei...

No tabuleiro da vida, mais uma peça se perde e não há reposição. É nisso que a mente se perde e isto reverbera em nossos submundos protegidos. Ao mesmo tempo, é a dor da perda e da revelação; é a dor da exclusão e da pura verdade. Não há fuga. A mente pode até construir uma outra rotina normalmente com muitos vícios, procrastinação, desanimo, ansiedade e depressão; mas não há fuga. É uma realidade esburacada sendo consertada com material frágil e errado. E a dor segue seu fluxo. O que fazer? A mente é nossa parceira de vida inteira e se alimenta de tudo o que nos acontece. O que fazer?

No meu caso, só há uma resposta: SORTE advinda de SORTEIO mesmo!

É contar com um desenvolvimento pessoal de sorte; assim como é sorte chegarmos a determinadas idades. É a Sorte de ter uma história consistente com qualquer mínimo poder de resiliência. Sorte de saber o que fazer com as brincadeiras horrorosas que a inimiga mente fará. Sorte de saber respirar com novas nuances quando a louca dor chegar. Sorte de ter afetos que encapem nossa vida de palavras positivas ou ações de fé e paz. Sorte de saber viver um novo dia sem parte de sua história e mesmo assim agradecer. Sorte de se acreditar alguém de sorte...

Seres superiores não me dizem mais nada.

Só tenho a certeza da SORTE advinda de uma roleta russa administrada pelas Moiras, a Sra Certeza Ruim e a Mente.

Só tenho a certeza da SORTE realmente inimiga da perfeição.

Cansada...

 

Prof.ª Ms. Claudia Nunes (01/11/21)

Pensando consciência com Damásio


Lendo Damásio e pensando em consciência. É um desafio. Em tempos pandêmico, é um enorme desafio ter consciência de si e controlar a crueldade da mente. O sistema nervoso funciona bem com hábitos. E hábitos tem dupla personalidade: são confortáveis e degradantes. Eles nos fazer conhecer e pensar adequadamente, mas como trabalham sob a égide do piloto automático, eles oferecem mil obstáculos para nossos desejos de mudança. Mudar é quebrar hábitos e, em terreno confortável, quebrar o processo e investir no desconhecido é amedrontador. Do hábito ao desejo de mudança: a consciência.

Hoje falamos em resiliência, empatia e autoconhecimento, mas nossas memórias (experiências emocionais e cognitivas), base da nossa autoconsciência, resistem às mudanças mesmo com o reconhecimento de que estamos numa trajetória de perdas, angustias, tristezas e fracassos. Segundo Damásio, a consciência é fruto da necessidade básica de nos mantermos vivos, as vezes de forma automática, as vezes de maneira complexa. Nós precisamos estar atentos a certos cuidados básicos evitando a presença de emoções toxicas crônicas, a vivência de perigos exagerados, a excessiva introdução de alimentos e tempo demais em relações pessoais ou profissionais que não signifiquem mais nada. Difícil? Muito!

De acordo com Damásio, os seres humanos são muito complexos: além de precisarem manter a vida de uma forma simples, eles têm que se adaptar a um ambiente cheio de dificuldades para obter energia e se expõem a inúmeros perigos e oportunidades. Então para pulverizarmos os desafios negativos, nós devemos desenvolver sistemas complexos de imaginação, criatividade e planejamento. E assim, surge a consciência.

Primeiro é preciso sentir e reconhecer quem se é com tudo o que se experimentou na vida. É o que o senso comum diz como “encarar o medo”. É a consciência que faz com que não nos identifiquemos com um robô, uma máquina manipulável.

Nesta perspectiva, nós temos a capacidade de guiar a imaginação e conduzir a criatividade para o bem-estar, o pensamento estratégico, a escuta sensível, o entendimento da dor e do sofrimento, e enfim respeitar os outros. Ao saber quem somos podemos nos diferenciar do outro e entender a intensidade e extensão do que vivem. Interessante? Sim! Mas o grande desafio hoje é saber resolver os conflitos internos, principalmente quando os hábitos (mesmo os tóxicos) são confortáveis e seguros.

Superar a rotina emocional e se jogar no desconhecido, em muitos casos, exige ajuda profissional intensa. Você se conhece realmente? Como encara seus desafios? De acordo com Damásio, quando conhecemos os mecanismos que acionam a ansiedade, a tristeza e a alegria, podemos entender melhor como somos e podemos minimizar certos desafios / conflitos. Ou seja, quando admitirmos que nossa razão é influenciada e reconfigurada pelas emoções, nós poderemos nos tornar mentes melhores.

 

Prof.ª Ms. Claudia Nunes (17.10.2021)

 

Referencias:

DAMASIO. O Mistério da Consciencia.

Revista SuperInteressante. http://cultcarioca.blogspot.com.br/2012/01/antonio-damasio-entrevista-origem-da.html?spref=fb Visto em 16.10.21.

 

Inspiração: chave da superação


Um mundo sem inspiração? Onde encontrar inspiração? Inspiração advém de vontades ou de exemplos e ganha força em nossa predisposição. É preciso predisposição para aceitar e trilhar a inspiração. Não há regras fixas, apenas a ação rotineira de se predispor. E ação rotineira está no campo da disciplina.

Inspiração é a chave dos ajustes necessários à vida mais produtiva ou ao menos animada. Primeiro passo: saber o que está funcionando e aprofunda-lo / qualifica-lo com prazer. Partir do que não funciona não adiantará: perguntas erradas, respostas mais erradas ainda. Segundo passo: saber o que ou quem nos inspira realmente. Ainda que estejamos em zonas sombrias emocionais, a escuridão pode ser iluminada pelo nosso autoconhecimento, experiencia e vontade. Então a inspiração sempre estará à espreita.

No mundo sombrio dos impactos mais fumegantes (as perdas repentinas), nós sofremos rupturas doloridas, mas estas, quando percebidas claramente, devem ser controladas pela inspiração, algo que fixe nossa mente num território de esperança e de possibilidades. É a hora em que devemos trocar a palavra ‘problema’ por ‘desafio’; é a hora em que desafiamos o modo como vivíamos ou percebíamos o funcionamento do mundo; e é hora de se reaprender a respirar para voltar à mesa de jogo, sem alguns jogadores parceiros.

Um mundo sem inspiração? Não sabemos. Um mundo sem inteligência emocional e empatia é o percebido. Ai a inspiração se esconde. Somos capazes de realizar tudo que sonharmos, a questão é prestar atenção ao jogo da vida e ser um pouco estratégico para não nos perder. A mente é muito fluida e ela nos escapa quando o chão é movediço e desconhecido. Então inspiremo-nos com força e vontade.

O que pode ser significativo? O que pode agregar valor? “Comece pelo porquê” é um livro inspirador para o nosso momento. Não somos perfeitos, somos humanos e singulares; e por isso nossa projeção social, por exemplo, deve ser dar pela inspiração e do porquê.

O que pode nos tirar da curva, depois de perdas que independeram de nossa vontade? A inspiração. Aquilo que nos acalenta o coração e entra em comunhão com nossa vontade. Aquilo que fortalece até mesmo propósitos esquecidos.  É aquilo que lhe dá motivo para agir. Então aja! Surfe na primeira onda que passar e aja! Abra sua mente, fortaleça seu corpo e lembre: a inspiração não lhe tira o chão, ela lhe amplia em meio às multidões.

Inspiremo-nos todos os dias!

 

Prof.ª Ms. Claudia Nunes (12/10/2021)

 

Referencia:

SINEK, Simon. Comece pelo porquê: como grandes líderes inspiram pessoas e equipes a agir. Rio de Janeiro: Sextante, 2018. [recurso eletrônico]

O IDOSO da minha janela


Da minha janela, muitos idosos vão e vem. Idosos. Esta é uma realidade inesquecível. Idosos são aqueles que sobreviveram ao tempo e suas agruras e frescuras. Segundo Beauvoir (2018) afirma que este “é um fenômeno biológico, acarreta consequências psicológicas e tem uma dimensão existencial, pois modifica a relação do sujeito com o tempo”. Ao observar seus movimentos não vejo seus decantados problemas. Eu vejo pessoas cujas singularidades representam seu tempo, tal e qual, os jovens, as crianças e os adultos, agora, com mais calma.

Lá vão pessoas recheadas de experiências, de histórias, de sabedorias, de certezas e de medos. Não há mais organismo natural. Aliás depois do nascimento, não temos nada de natural: somos o que vivemos e vivenciamos. Todas as dimensões humanas estão conectadas, interligadas e funcionando em parceria. Isso é muito louco! Apesar dessa minha certeza, sempre que leio ou escuto o assunto ‘idoso’, tenho a sensação de um mundo à parte. Sinto como se em algum momento, somos assolados por uma grande surpresa: a idade avançada. E daí em diante, os comportamentos mudam. Alguns mais compreensíveis, outros mais irascíveis; uns sem noção do que fazer, outros ajustando a vida para absorver a surpresa. E o idoso sendo tratado como uma entidade à parte da sociedade literalmente.

Nós devemos prestar atenção a Beauvoir (2018), “o que chamamos a vida psíquica de um indivíduo só se pode compreender à luz de sua situação existencial”. Nós devemos prestar atenção a todos ao longo de seu tempo de vida apesar de quaisquer transtornos ou disfunções. Ninguém muda depois dos 60 anos. O corpo e a mente vão mudando ao longo da vida e, após os 60 anos, PODE haver uma degeneração mais veloz do organismo. E quando falamos de organismo, nós nos referimos a junção da experiencia emocional, cognitiva e corporal que formam a realidade do ESTILO DE VIDA. “Não basta descrever de maneira analítica os diversos aspectos da velhice: cada um deles reage sobre todos os outros e é afetado por eles; é no movimento indefinido desta circularidade que é preciso apreendê-la” (BEAUVOIR, 2018). Entenderam?

Mais do que nunca devemos entender que precisamos pensar o idoso e a cidade / a família como veio importante a manutenção da própria cidade / família. Ou pensar o idoso como partícipe contínuo da produtividade social, principalmente, no item cultura e lazer. “A velhice, enquanto destino biológico, é uma realidade que transcende a história, não é menos verdade que este destino é vivido de maneira variável segundo o contexto social” (BEAUVOIR, 2018).

Qual é a realidade brasileira? Apesar da presença de uma literatura enorme e profunda: qual é a realidade brasileira, quando nos referimos ao idoso ou à qualidade de vida de um idoso? Tenho lido muitos estudos orientais e realmente, minha resposta é: dramática! Quais soluções ou ferramentas são criadas e oportunizadas ao idoso para viver em bem-estar básico? De novo só penso na palavra ‘dramática’.

De outra maneira (ainda estou na janela), respostas a essas questões dão o tom das inseguranças mentais observadas nos idosos. Seus medos não advêm apenas da consciência da idade, mas pelas experiências e memórias negativas de outrem (amigos, colegas, vizinhos, familiares ou nem tanto), ao longo da vida. Eles receiam o descarte, o esquecimento, a demência, a injustiça e a violência que outros sofreram e criam, em seus sistemas emocionais, o pior suspense do mundo: o que farão comigo se... Por que isso? Porque nossa sociedade vive assustada com a presença do idoso. E assustada, essa sociedade faz o mais fácil: superprotege ou descarta ou violenta. Há um desejo de terminar logo com esse ‘trabalho’.

Na maioria dos casos, o idoso perde força no núcleo familiar, tem podado seu ir e vir, assemelha-se a um sofá (mudo e parado) e não tem respeitadas suas vontades e desejos. Por que será? Vida em espiral veloz. Idoso representa para o outro uma parada na velocidade do tempo (da vida) para poder escutar, atender e respeitar. “Tanto ao longo da história como hoje em dia, a luta de classes determina a maneira pela qual um homem é surpreendido pela velhice; um abismo separa o velho escravo e o velho eupátrida, um antigo operário que vive de pensão miserável e um Onassis” (Beauvoir, 2018). Ou seja, a visão sobre o idoso funda-se na filosofia do hiato. Não devemos pensar dicotomicamente; devemos nos aprofundar na fenda, na separação, no susto, no que separa o idoso da sociedade produtiva ‘do nada’.

Pensemos na questão de Beauvoir (2018): “A velhice não é um fato estático; é o resultado e o prolongamento de um processo. Em que consiste esse processo? Em outras palavras, o que é envelhecer?”. Eu respondo: a palavra de ordem é MUDANÇA. Não há adjetivação de bom ou ruim; favorável ou desfavorável; não há julgamento; é só mudança mesmo. E mudar é a lei da vida. Só a inércia alimenta a morte. Então para terminar e fazer pensar, mais Beauvoir (2018):

ð  “É no seio do empreendimento de viver que se estabelece a hierarquia das idades, e o critério é muito mais incerto”.

ð  “Todo organismo tende a subsistir”.

ð  “No homem, o próprio corpo não é natureza pura”.

ð  “Não se falará de envelhecimento enquanto as deficiências permanecerem esporádicas e forem facilmente contornadas”.

ð  “Cada um dará uma resposta diferente, segundo sua tendência a valorizar mais as aptidões corporais ou as faculdades mentais, ou um equilíbrio entre umas e outras”.

ð  “Definir o que é para o homem progresso ou regressão supõe que se tome como referência um determinado fim; mas nenhum é dado a priori, no absoluto”.

ð  “A velhice não poderia ser compreendida senão em sua totalidade; ela não é somente um fato biológico, mas também um fato cultural”.

 

Prof.ª Ms. Claudia Nunes (27/08/2021)

 

Referência:

BEAUVOIR, Simone. A Velhice (Preâmbulo). 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019, p.13-17. (Recurso digital – Biblioteca Áurea)

 

CUIDADOS PALIATIVOS, uma dúvida e eu


Cuidados paliativos. Cada vez que eu ouço isso lembro de minha mãe. Luta por qualidade de vida e não por saúde não é fácil para os filhos. Em todo lugar para onde olhamos, a morte aguarda com seu olhar cínico de “eu vencerei”. No processo, nós precisamos criar um mantra: viver os momentos e lutar por um fim sem dor e em paz. Quase um ano depois e eu ainda me pergunto: fiz tudo que eu podia? Não surfo nessa dúvida com frequência, mas ela sempre surge quando me distraio da rotina profissional, lugar para onde vou ferrenhamente quando sinto que emoções conflituosas ou dúvidas sem resposta irão frequentar minha mente.

Cuidados paliativos, eis o que se deve fazer quando a Sr.ª Certeza Ruim chega sem convite e nos faz realizar a “escolha de Sofia”.

Cuidados paliativos, nova onda de conteúdo que observo em minha rede social, e que, segundo Cicely Saunders, médica britânica, pioneira nos cuidados paliativos, é uma abordagem que visa colocar o paciente com uma doença incurável no cerne do cuidado, respeitando até o último momento os seus desejos e a sua individualidade.

Quase um ano depois, é assim que sigo construindo meu olhar sobre tudo que passei. Nunca a dúvida me deixará, mas sempre a certeza de que fiz o meu melhor precisa ser a linha-mestra dos próximos capítulos de minha vida. Não estou só. Nunca me sinto só. Sou tudo e todos que passaram em minha existência e por isso tudo e todos merecem respeito. Daí cuidados paliativos para mim, para ela e para todos é o CONFORTO do tempo.

Cuidados paliativos é compreender a presença da Sr.ª Certeza Ruim, trabalhar emoções e atitudes em tempo real, fazer as escolhas adequadas, agir com naturalidade, quando possível, e ir criando defesas para diminuir o sofrimento da perda. Difícil? É sim e muito. Quando estudamos cuidados paliativos, vamos compreendendo (o gerúndio cabe porque é preciso tempo para viver sob esse olhar) que morrer é tão importante quanto nascer e, por isso, até o fim, qualidade é fundamental.

Cuidados paliativos então observa a pessoa muito além da doença. Há ações fundamentais a serem realizadas, mesmo depois que as intervenções médicas não são mais possíveis. E nesse tempo, vamos pensando na vida: a que passou e a que será. É a finitude da vida e a presença da Sr.ª Certeza Ruim que sacode a rotina dos planos adiados. É comum pensarmos que teremos o amanhã com todos os que conhecemos e mesmo com todos com quem crescemos. Ledo engano! Quando a porta da vida é escancarada pela chegada da Sr.ª Certeza Ruim, o essencial até então perde força e importância.

Por um período curto ou longo, nós lutamos contra a novidade incomoda e o sorriso tosco da Sr.ª Certeza Ruim. E é um tempo que, ou desabamos emocionalmente e nos tornamos dependentes de outros, ou assumimos a realidade com tudo dentro: dores, medos, decisões, invasões, opiniões, erros e muito carinho e paciência. São emoções que moldam nossos sentimentos, pensamentos e atitudes. Eu optei pelo segundo movimento, ainda que tenha muito medo do escuro... do escuro de tudo. E foi um tempo de expiação de tudo. Eu tive tempo para me jogar no campo mais sentimental possível e ser outra pessoa. O sorriso da Sra Certeza Ruim ganhou um sentido mais positivo: “você está indo bem...”. No fim, uma fala e os cuidados paliativos. E Sr.ª Certeza Ruim, de pé, pronta para sair levando um bem precioso demais: minha mãe.

Com cuidados paliativos, há o tempo de outra ressignificação e operacionalização daquilo que é a essência de cada um:  cuidados físicos adequados, controle dos sintomas, apoio psicológico e espiritual e segurança. É o tempo em que eu fico sentada, olhando os movimentos de outros, cuidando com todo carinho, atenção, delicadeza e respeito. É a dignidade que, no fim, eu não pude mais realizar, mas oferecer, junto a outros profissionais.

Realmente, diante da notícia da realização de cuidados paliativos, o luto começa forte. E o luto é luta feroz contra tudo o que ignoramos para sobreviver. Mas também é hora de uma mudança de olhar sobre como viveremos a ação da irônica Sr.ª Certeza Ruim. Pelo que observei e vivi: é a hora da proteção; de diminuir o tom da dor; de aceitar ajudas diversas; de criar levezas internas; de oferecer vida com qualidade, principalmente emocional; de não sabotar sentimentos incômodos; de falar ‘pelos cotovelos’; de acreditar no plano de cuidados oferecidos; de respeitar desejos / pedidos; e de pensar em como viver com mais uma cadeira vazia na cozinha.

Lendo sobre cuidados paliativos, alguns mencionam “kalotanásia” conhecida como a ‘boa morte’: conjunto de ações para que o processo de morrer seja o mais suave e sereno possível e que promove a consciência da morte, controla sintomas desagradáveis, respeita o desejo dos pacientes e promove a sua autonomia até o fim. Assim eu fiz. Assim lembrei que ela sempre falou e pediu. Mas confesso que, para a ‘boa morte’, eu ainda preciso de muita maturidade, pois a dúvida permanece: “fiz tudo o que podia ou devia?”. Segue o baile...

 

Prof.ª Ms. Claudia Nunes (22.08.21)

 

Referências

https://www.uol.com.br/vivabem/reportagens-especiais/cuidados-paliativos-como-eles-ajudam-paciente-a-ter-qualidade-de-vida/#page20

Imersão mais responsável


Mundo moderno. Evolução e revolução nas sociedades. Tecnologias digitais nas mãos de todos e transformando os sentidos, os pensamentos, as atitudes e as emoções. Funções cerebrais em grande e veloz plasticidade. Prejuízo? Talvez disfunção porque, em velocidade, os erros são mais comuns. Erros emocionais cognitivos, físicos e relacionais. Atenção, memória e linguagem em um looping funcional. Consequência: terceirização de ações habituais como refletir antes de agir; pesquisar em múltiplos objetivos e com várias técnicas; ter cuidados com a escrita ou ter maior conhecimento sobre o uso das palavras. Cada vez mais a informação não está na ‘ponta da língua’. O conhecimento e traquejo tecnológico resolve esse ‘problema’. Ai pergunto? Como será construída nossa memória e, mesmo, nossa reserva intelectual, no futuro? Não sei. Só sei que precisamos pensar bem nisso entre nossos pares. Pensar e agir com rapidez. Para usar as tecnologias é preciso a presença do humano. Do aspecto humano que possa gerenciar as informações com discernimento e sensibilidade. E máquinas sensíveis ao momento ou situação particular ainda faz parte da ficção científica. Então cabe a nós AGORA, criar estratégias para criar repertórios internos que nos capacitem a buscar dentro de nós mesmos, quando necessário, todas as respostas para os desafios da vida. Talvez possamos mediar o processo com as tecnologias, afinal são RECURSOS positivos a nossa própria sobrevivência e formas de adaptação, mas ainda não dá para delegar a estes recursos o poder de saber escolher e decidir nossa vida diária. Ainda não temos uma máquina capaz de imitar a capacidade humana em TODA a sua complexidade. As tecnologias podem ajudar a atenção, a memória e a linguagem a encontrar e usar informações; mas ainda precisamos do humano para saber como e o que fazer com esta mesma informação. Esta é uma necessidade humana. Sabe o que é prejudicial mesmo? O excesso. O excesso de tempo de imersão em ambiente virtual, pois ai sim há a ampliação do isolamento e o desgaste na saúde mental, além do aprofundamento do funcionamento do sistema de recompensa (vício). Cuidado com a flexibilidade cognitiva que você se oferece em ambiente virtual pelo enorme prazer que ele pode gerar.

 

Prof.ª Ms. Claudia Nunes (19.07.2021)

Nada nunca é igual

  Nada nunca é igual   Enquanto os dias passam, eu reflito: nada nunca é igual. Não existe repetição. Não precisa haver morte ou decepçã...